O clima mais quente faz as flores se abrirem mais cedo - uma ligação que ecólogos estabeleceram há anos. Já a seca sempre foi muito mais difícil de antecipar.
Quando a mesma quantidade de chuva deixa de cair, as plantas podem florescer antes, depois ou quase não alterar nada.
Essas respostas contraditórias confundem pesquisadores há décadas.
Um estudo recente indica que a peça que faltava pode ser o calendário. Em outras palavras, o momento em que a seca acontece pode mudar por completo a reação das plantas - e os vizinhos que crescem ao redor ainda podem remodelar essa resposta.
Quando a seca acontece
Uma equipa da Universidade Hebraica de Jerusalém (HUJI) desconfiava que a aparente confusão escondia algo direto.
A questão central não era quanto de chuva desapareceu, mas em que momento ela deixou de vir.
Grande parte dos trabalhos anteriores acompanhou sobretudo o total de chuva que um lugar recebe no ano. Poucos perguntaram se o mesmo défice pesa de maneira diferente no outono do que na primavera.
Em regiões mediterrâneas, a época chuvosa já está a encurtar. Hoje, a chuva cai em menos dias do que caía há uma geração.
Por isso, o grupo investigou o que ocorre quando a água “faltante” acontece em pontos distintos da estação: a mesma redução no total, porém com um calendário diferente.
Testando a seca em momentos diferentes
O experimento foi realizado numa estufa em Rehovot, Israel, isolada da chuva natural. Cada gota de água foi fornecida por um sistema de gotejamento controlado.
Participaram cinco plantas mediterrâneas comuns, do senécio-da-primavera à aveia-comum. Todas enfrentaram exatamente o mesmo corte no volume total de água.
A diferença estava no agendamento. Um grupo perdeu água no outono, outro no meio do inverno e um terceiro na primavera.
Algumas plantas cresceram sozinhas, com cada espécie no seu próprio vaso. Outras foram cultivadas juntas, apertadas num mesmo recipiente, o que permitiu à equipa separar a resposta própria de cada planta da pressão exercida pelos vizinhos.
Quando o período seco chega
O momento em que a seca se instalou fez enorme diferença. Um período seco de cinco semanas no meio do inverno quase não mexeu com a floração.
Já um outono seco atrasou a floração, porque as sementes germinaram mais tarde e precisaram de tempo para ganhar massa. Uma planta não consegue florescer antes de atingir um certo tamanho.
Uma primavera seca produziu o efeito oposto e encurtou a floração. Flores que teriam permanecido abertas por mais tempo, em vez disso, encerraram-se mais cedo.
Assim, as duas “pontas” da estação comprimiram a janela de floração. No meio do inverno, a mudança duradoura mal apareceu.
Vizinhos e o calendário de floração
A maior surpresa veio dos recipientes com plantas misturadas. Quando as espécies cresceram lado a lado, cada uma delas passou a tender a florescer num momento ligeiramente diferente.
Esse “espalhamento” reduziu a sobreposição entre espécies. Menos sobreposição significa menos disputa pelos mesmos polinizadores e pela mesma água.
Durante muito tempo, os livros-texto ensinaram que esse tipo de separação precisaria de tempo evolutivo para surgir. Aqui, ela apareceu dentro de uma única estação de crescimento, sem qualquer mudança genética.
As plantas não estavam a adaptar-se ao longo de gerações. Elas apenas ajustavam a própria dinâmica conforme quem estava ao lado.
O momento da seca reduz a sobreposição
Para quantificar o padrão, a equipa criou uma pontuação única que mede quanto os períodos de floração se sobrepunham. Uma pontuação alta indicava que as espécies partilhavam o mesmo calendário; uma pontuação baixa, que se distribuíam em momentos distintos.
Depois, compararam os recipientes reais (com competição) com uma versão simulada em que a competição era retirada. As comunidades reais ficaram cerca de 10 pontos percentuais mais separadas.
Essa diferença foi a marca da competição. A rivalidade - e não o acaso - estava a recortar a estação em faixas temporais diferentes.
Tanto a seca de outono quanto a de primavera ampliaram um pouco mais essa separação. O período seco no meio do inverno, mais uma vez, praticamente não alterou o padrão.
A surpresa em recipientes com plantas juntas
Muita gente pensa que a seca é apenas sinónimo de menos chuva, mas os pesquisadores mostraram que o momento em que ela ocorre também é decisivo.
“Even the same amount of water can lead to completely different results if the shortage occurs at a different stage of the season,” disse o coautor do estudo Barel Tsafon, professor da HUJI.
“What really surprised us was that the plant’s response to drought changed depending on its neighbors.”
Isso indica que não dá para compreender plenamente as mudanças climáticas estudando cada espécie vegetal isoladamente.
Plantas seguem caminhos diferentes
A seca de primavera revelou uma divisão mais profunda. Algumas mudanças vieram diretamente da falta de água, enquanto outras só apareceram quando os rivais estavam por perto.
A aveia-comum adiantou a floração por conta própria, como resposta direta à primavera seca. Ela comportou-se do mesmo modo crescendo sozinha ou em grupo.
A silene-da-Palestina contou outra história. Quando estava sozinha, quase não mudou; porém, em recipientes mistos, encerrou a floração cerca de três semanas mais cedo.
Nesse caso, a seca atuou por meio dos vizinhos, mais do que pelo solo. Foi a competição - e não apenas o período seco - que impôs a mudança.
Plantas competem por água limitada
Nos recipientes com plantas juntas, a competição encurtou de forma consistente o tempo em que a maioria das espécies permaneceu em flor. A água ao alcance de cada planta diminuiu quando os vizinhos entraram em cena.
Uma espécie que floresce tarde ignorou praticamente tudo isso. A calêndula floresce mais tarde e cria raízes profundas, o que lhe permite alcançar água que as plantas de raízes mais rasas nunca conseguem acessar.
“Plants do not communicate like humans and do not make decisions about when it is best to bloom in order to avoid getting in trouble with more attractive plants,” disse o coautor do estudo Niv DeMalach, professor da HUJI.
“We hypothesize that the mechanism is much simpler: one plant takes water from another plant, and because of the resulting water shortage, the neighboring plant has fewer resources,”
Essa escassez obriga a planta a começar a florir mais tarde ou a terminar a floração mais cedo.
Ao observar o quadro completo, ao longo de todas as espécies, surge um padrão de separação de nicho: a competição faz com que cada espécie floresça em um momento ligeiramente diferente.
Totais anuais de chuva não contam a história
Os resultados sugerem uma mudança na forma de acompanhar as alterações climáticas. O total anual de chuva pode ser um indicador mais fraco do que o calendário de quando essa chuva chega.
Eles também reforçam que é arriscado analisar os efeitos da seca numa planta de cada vez - e que não basta focar apenas na temperatura. Uma espécie pode inverter completamente a própria resposta quando os vizinhos entram na equação.
Em regiões mediterrâneas, onde a estação húmida continua a deslocar-se, o momento da chuva tem um peso real. A mesma chuva anual pode gerar primaveras muito diferentes de um ano para o outro.
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