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Oleamida do plástico pode desorientar o Octopus vulgaris e alterar interações predador-presa

Polvo marinho próximo a garrafa plástica no fundo do oceano com raios de luz atravessando a água.

Um simples fragmento de plástico pode transformar a forma como animais marinhos caçam, se escondem e conseguem sobreviver. Pesquisadores vêm percebendo que substâncias liberadas por resíduos plásticos podem, de maneira discreta, desorganizar a vida no mar de jeitos inesperados.

No mundo inteiro, mais de 350.000 substâncias químicas estão em uso atualmente. Uma parcela delas acaba chegando ao oceano por meio da poluição por plástico. À medida que o plástico se acumula em águas costeiras, ele vai liberando aos poucos compostos conhecidos como aditivos.

Esses aditivos têm potencial para interferir nos sinais químicos que organismos marinhos usam para localizar alimento, fugir de predadores, escolher abrigos seguros e se comunicar.

Entre essas substâncias, uma vem chamando atenção: a oleamida.

Substância química do plástico imita sinais naturais

A oleamida é empregada por empresas como lubrificante em plásticos comuns, como polietileno e polipropileno. Quando o plástico se fragmenta lentamente na água, a oleamida pode se desprender e se difundir no ambiente.

A oleamida não é apenas fabricada pelo ser humano. Organismos vivos também a produzem naturalmente. Em mamíferos, ela influencia o sono. Em alguns animais marinhos, pode atuar como uma feromona, isto é, um composto químico usado na comunicação.

Além disso, a oleamida se parece muito com o ácido oleico, uma substância associada à morte em algumas espécies, como caranguejos.

Por ter semelhança com compostos naturais, animais marinhos podem interpretar a oleamida de forma equivocada. Essa “leitura” errada pode alterar o comportamento.

Testando o comportamento de polvos

Cientistas da Universidade Atlântica da Flórida buscaram entender de que maneira a oleamida influencia a dinâmica entre predador e presa.

O grupo trabalhou com Octopus vulgaris, uma espécie comum nas águas do sul da Flórida. Esse polvo se alimenta de organismos menores, incluindo caranguejos e amêijoas.

Em tanques de laboratório, os pesquisadores ofereceram aos polvos quatro tipos de presas: caranguejos-eremitas, caranguejos de vida livre, caracóis e amêijoas. Câmeras registraram o comportamento em sessões de 90 minutos.

O que foi consumido pelos animais também foi acompanhado ao longo de 24 horas. Ao todo, foram avaliadas mais de 31.500 observações.

A equipe classificou as interações entre predador e presa em três categorias: caçadas bem-sucedidas, tentativas mal-sucedidas e agarrões rápidos. Tentativas mal-sucedidas e agarrões rápidos foram reunidos como interações não consumptivas.

O que mudou na água

Antes da adição de oleamida, a preferência do polvo era nítida por crustáceos. Caranguejos-eremitas e caranguejos de vida livre eram escolhidos com mais frequência do que amêijoas ou caracóis. Os caracóis se mantiveram como o alimento menos preferido durante todo o estudo.

Quando os cientistas colocaram oleamida na água, o padrão de escolha se alterou rapidamente. O polvo passou a selecionar mais caranguejos de vida livre e menos caranguejos-eremitas.

Mesmo após a retirada do composto, essa mudança permaneceu por pelo menos três dias. A seleção de caranguejos-eremitas caiu a um nível inferior ao de amêijoas, algo que não havia ocorrido anteriormente.

As interações entre o polvo e suas presas também aumentaram. Ainda assim, o número de caçadas bem-sucedidas não cresceu. Em vez disso, tornaram-se mais frequentes as tentativas mal-sucedidas e os agarrões rápidos.

Quando a comunicação deixa de funcionar

Os pesquisadores consideram que a oleamida pode confundir os crustáceos. Como o composto pode se parecer com o ácido oleico - que em algumas espécies funciona como sinal químico de morte - as presas talvez continuem procurando alimento em vez de evitar o risco.

“Many species rely on chemical information to detect food, assess predation risk, and balance the tradeoffs between foraging and staying safe,” disse o Dr. Michael W. McCoy, autor sênior do estudo.

“What’s striking about this study is that when oleamide entered the system, that chemical communication appeared to break down.

“Crustacean prey reduced their predator-avoidance behaviors, even as the octopus became more exploratory and increased their interactions – especially grasps. Normally, more predator contact would heighten prey defenses. But in the presence of oleamide, that expected response simply didn’t happen.”

O próprio polvo também pode sofrer com essa confusão. Polvos dependem de sinais químicos na água e também do contato para identificar presas. A oleamida pode atrapalhar esse processo, resultando em mais contato, porém sem elevar o sucesso das caçadas.

Implicações mais amplas do estudo

Mesmo ajustes discretos no comportamento podem repercutir em todo o ecossistema. Se as presas deixam de evitar predadores de forma adequada, cadeias alimentares podem se reorganizar. Um aumento de contato entre espécies também pode modificar como a energia circula no sistema.

“These changes in predator-prey interactions could have far-reaching effects on marine ecosystems,” disse Madelyn A. Hair, primeira autora e gerente de laboratório de pesquisa do Laboratório Gil na Universidade do Colorado Boulder.

“By altering how prey respond to predators and increasing non-consumptive interactions, oleamide leaching from plastics may ripple through entire marine communities.

“These subtle behavioral shifts could reshape the distribution and abundance of resources, change feeding dynamics, and affect interaction rates across multiple species, ultimately influencing the structure and function of coastal marine ecosystems in ways we are only beginning to understand.”

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