Um grande tubarão dorminhoco tornou-se o primeiro tubarão já registrado em vídeo dentro de águas antárticas. A imagem mostra o animal deslizando na escuridão quase congelante a 490 metros de profundidade.
Essa única passagem pelo Oceano Austral derruba uma suposição antiga: a de que tubarões simplesmente não vivem na Antártida.
Onde o tubarão apareceu
Bem abaixo do gelo, nas proximidades da Península Antártica, uma câmera de águas profundas captou o tubarão de corpo robusto atravessando o fundo marinho na Fossa das Ilhas Shetland do Sul.
Ao analisar as gravações dessa expedição, o professor Alan Jamieson e colegas do Minderoo-UWA Deep-Sea Research Centre, da University of Western Australia, registraram a primeira presença confirmada de um tubarão em águas antárticas.
O animal cruzou devagar o feixe de luz da câmera a 490 metros de profundidade, em água apenas um pouco acima do ponto de congelamento.
Como não havia qualquer registro anterior de tubarões tão ao sul, a observação obriga os cientistas a reavaliar se esses animais já ocupavam silenciosamente as profundezas antárticas há muito tempo.
Vida oculta nas fossas da Antártida
Filmar esse animal só foi possível graças a uma busca bastante específica em um ambiente que resiste a quase todo tipo de observação rotineira.
Durante uma campanha de 64 dias, a equipe da UWA acumulou 840 horas de vídeo do fundo do mar a partir de 63 descidas de plataformas de observação até a fossa.
Jamieson destacou que, na maior parte do ano, ninguém monitora o fundo marinho profundo da Antártida - o que cria longos períodos em que animais inesperados podem passar sem serem notados.
Esse “ponto cego” faz a cena parecer menos um surgimento repentino e mais um lembrete do quanto há pouca vigilância nessa região.
Por que tubarões dorminhocos sobrevivem aqui
Tubarões dorminhocos são feitos para a espera, e não para arrancadas rápidas em águas claras perto da superfície. Eles vivem em ambientes profundos e escuros, crescem lentamente e podem levar décadas para atingir a maturidade.
O grande porte e o ritmo lento combinam com uma vida em que o alimento é disperso e a espera é parte da rotina. A raridade - e não a impossibilidade - pode explicar por que a Antártida pareceu não ter tubarões por tanto tempo.
A água ao redor do tubarão estava em cerca de 1,3 °C, fria o bastante para reduzir drasticamente a vida, mas sem transformar o mar em gelo.
O sal diminui o ponto de congelamento da água do mar, criando uma pequena margem operacional para animais que já são adaptados ao frio intenso das profundezas.
Os tubarões dorminhocos aproveitam essa margem ao se deslocar lentamente e gastar energia de forma econômica quando a comida aparece de maneira irregular. Essas características combinam com um local em que as refeições podem ser raras e a tolerância ao desperdício é mínima.
Por que a profundidade foi importante
Nesta ocorrência sob o gelo antártico, a profundidade pode ter pesado tanto quanto a latitude.
Segundo os pesquisadores, o tubarão permaneceu próximo de 500 metros porque ali existe uma faixa de água relativamente mais quente, com camadas mais frias acima e abaixo.
Essa água é estratificada - organizada em camadas que não se misturam facilmente - e isso pode criar um corredor estreito em que o tubarão precisa gastar menos energia.
Assim, o trajeto do animal talvez tenha sido menos aleatório do que parecia no primeiro momento, e mais um uso preciso da física local.
Identificando o tubarão da Antártida
A maior parte dos indícios aponta para o tubarão dorminhoco-do-sul, Somniosus antarcticus. Trata-se de uma espécie volumosa de águas profundas, conhecida no Hemisfério Sul.
Os registros o colocam principalmente ao longo de margens continentais e encostas de ilhas, muitas vezes entre cerca de 488 e 1.158 metros.
Esse perfil bate com o corpo pesado do animal filmado, as nadadeiras pequenas e o deslocamento sem pressa rente ao fundo.
Ainda assim, apenas a morfologia não resolve todos os parentes próximos - e é aí que a genética entra na história.
Identidade do tubarão em debate
A genética moderna deixou menos simples o rótulo usado hoje para esses tubarões em águas do sul.
Um estudo de 2023 não encontrou evidência molecular que separasse tubarões dorminhocos-do-sul de tubarões dorminhocos-do-Pacífico nas populações amostradas.
Essas amostras vieram sobretudo do Pacífico Sul, o que ainda deixa os cientistas com pouca informação do Atlântico Sul e do Oceano Índico.
Por isso, pesquisadores mais cautelosos descrevem o visitante antártico como provavelmente um tubarão dorminhoco-do-sul, em vez de tratar o assunto como encerrado.
O que o clima pode significar
A mudança climática paira sobre qualquer surpresa na Antártida, mas, neste caso, as evidências ainda não sustentam uma interpretação única.
Um oceano mais quente pode reorganizar as camadas e levar calor a maiores profundidades, o que pode abrir ou ampliar as faixas de profundidade usadas por algumas espécies de águas frias.
Ao mesmo tempo, um único tubarão registrado por uma única câmera também pode significar apenas que esses animais sempre estiveram lá - e quase ninguém procurou.
A observação, portanto, levanta uma questão climática sem respondê-la, e essa diferença continua sendo importante.
Próximos passos dos pesquisadores
A próxima evidência provavelmente virá de novas amostras de água, e não de outra silhueta captada por sorte.
A expedição coletou 202 amostras de DNA ambiental, com vestígios genéticos deixados pelos organismos. A análise pode revelar a identidade do tubarão a partir desses rastros.
Se as amostras indicarem tubarões dorminhocos, os pesquisadores poderão começar a investigar se o animal filmado era um indivíduo isolado ou parte de uma população pequena.
Mais plataformas de observação na mesma faixa de profundidade ajudariam a esclarecer isso mais rapidamente do que um único encontro dramático jamais conseguiria.
Repensando tubarões nos mares antárticos
As imagens transformam a Antártida de uma região presumidamente sem tubarões em um local com ao menos uma exceção de mar profundo.
O que vem a seguir é ciência lenta por necessidade: mais monitoramento, mais amostragens e mais paciência em uma região que raramente oferece respostas simples.
Informações reportadas pela ABC News.
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