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Mexilhão invasor avança pelo Rio Tocantins e ameaça o Rio Amazonas na Amazônia

Mulher em barco segura corda com mexilhões e tablet com mapa, cercada por rio e vegetação.

Um mexilhão invasor já se espalhou por todas as cidades e municípios ao longo do Rio Tocantins, no norte do Brasil, na região amazônica.

Com uma expansão acelerada, ele eleva o risco de o próximo passo ser o Rio Amazonas: esse pequeno molusco se fixa em superfícies duras, se reproduz com rapidez e, depois de estabelecido, torna-se extremamente difícil de remover.

Mapeando o alcance do mexilhão

Um novo estudo combinou expedições pelos rios, varreduras na literatura científica e relatos locais confirmados para localizar onde o mexilhão está hoje.

Em levantamentos realizados no fim de 2025, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) permitiu que o biólogo Rafael Anaisce das Chagas validasse pontos de ocorrência.

Chagas acompanhou a invasão do Tocantins até o Rio Pará e a Ilha de Marajó, perto da foz do Amazonas. Ainda assim, as equipas não encontraram colónias em Belém, capital do estado, o que mantém uma janela estreita para ações de prevenção.

Dispersão acima do previsto

Originário do Sudeste Asiático, o mexilhão provavelmente chegou à América do Sul por meio de água de lastro - a água que navios carregam para manter estabilidade - e, a partir daí, avançou rapidamente para rios amazônicos.

Em agosto de 2023, registos já o apontavam na região amazônica, marcando o início da sequência de eventos que se seguiu.

Apenas dois meses depois, as equipas confirmaram a presença no Rio Tocantins, no interior, anos antes do que muitas previsões indicavam.

Uma simulação projetou a expansão para as décadas de 2030 e 2050, mas o cenário real se mostrou mais rápido do que o previsto no mapa.

Biologia feita para se espalhar

Por trás dessa velocidade estão características descritas numa revisão, que explicam como o mexilhão-dourado, Limnoperna fortunei, consegue colonizar ambientes de água doce.

Mesmo com um tempo de vida de dois a três anos, os adultos atingem a maturidade cedo e libertam larvas - mexilhões juvenis que derivam com a corrente.

Em redes de rios, essas larvas podem empurrar a invasão em até 240 quilômetros (149 milhas) por ano, sobretudo quando a água permanece em movimento.

Quando uma colónia se fixa, os aglomerados compactos passam a disputar espaço e podem criar a base para impactos maiores.

Como o mexilhão se fixa

Inspeções de dezembro de 2025 registraram colónias aderidas a rochas, troncos e raízes de árvores nas margens. O mexilhão mantém a fixação por meio de fios bissais, fibras resistentes que funcionam como uma cola - por isso, superfícies duras são as mais importantes.

Além de locais naturais, os levantamentos também encontraram colónias cobrindo paredes de concreto, redes de pesca abandonadas e até máquinas de lavar descartadas.

Como o lodo solto não oferece um ponto firme de ancoragem, um único objeto duro pode virar um ponto de partida para novo crescimento.

Habitats húmidos impulsionam o crescimento

Em muitos pontos, as colónias mais espessas apareceram nas áreas submersas durante a maior parte do dia, e não na parte superior da margem.

As anotações de campo identificaram a zona entremarés - a faixa da margem que alaga e seca com as marés - e as colónias concentraram-se na metade inferior.

Mais acima, períodos longos de seca reduziram os aglomerados, em linha com a necessidade do animal de permanecer húmido para se alimentar.

Qualquer esforço de monitoramento da invasão precisa olhar abaixo da linha de respingos, onde barcos, trapiches e rochas passam mais tempo submersos.

Cadeias alimentares começam a mudar

Em bancos densos, o mexilhão filtra partículas alimentares minúsculas da água, o que pode diminuir a disponibilidade para outras espécies do rio.

Ao se prender em camadas espessas, as colónias também retêm sedimentos e alteram pequenos refúgios, redefinindo quais organismos conseguem viver nas proximidades.

Em vários trechos do leito do rio, as equipas observaram o caracol-zebra Vitta zebra a pastar diretamente sobre os novos tapetes de mexilhões.

Outros moluscos, incluindo Prisodon corrugatus e o género Corbicula, foram vistos em menor número, mas o levantamento não testou as causas.

Infraestrutura em risco

Em centrais elétricas e sistemas de abastecimento, um guia oficial descreve a obstrução de entradas de água como um dano recorrente. Esse tipo de incrustação biológica - crescimento de organismos que bloqueia tubulações - força paragens para raspagem, lavagem ou tratamento químico.

Quando o mexilhão recobre motores de embarcações e estacas de docas, os custos de manutenção sobem, porque as equipas precisam remover as conchas endurecidas repetidas vezes.

Na prática, essas despesas tendem a aparecer antes de ecólogos conseguirem medir mudanças mais subtis na química da água ou nas cadeias alimentares.

Controlo em vez de erradicação

Depois que as colónias se estabelecem em rios abertos, o desafio deixa de parecer uma limpeza e passa a exigir controlo de longo prazo.

Pesquisadores alertaram que, uma vez instaladas, as ferramentas e o conhecimento disponíveis hoje não conseguem eliminá-las por completo das vias aquáticas.

As correntes levam juvenis rio abaixo, e embarcações podem transportar adultos rio acima; assim, trechos que parecem “limpos” voltam a ser povoados por novos indivíduos.

“Monitoramento contínuo é urgentemente necessário como estratégia fundamental para gestão de riscos e conservação da biodiversidade”, escreveu Chagas.

Protegendo o Rio Amazonas

Trabalhos recentes enquadraram crises ambientais como um exercício de antecipação, e não de culpabilização, e a história do mexilhão se encaixa nessa lógica.

Em muitas comunidades amazônicas, deslocar-se pelo rio é a regra; por isso, barcos, redes e estruturas flutuantes podem levar adultos e juvenis para dentro do Rio Amazonas.

Não se trata de apontar culpados, mas de antecipar riscos e se preparar de forma mais eficaz.

Essa abordagem reforça a necessidade de inspeções constantes em docas e portos, porque um único mexilhão não percebido pode iniciar uma nova colónia rio acima.

Mexilhões avançam além do Tocantins

Um mexilhão de multiplicação rápida já se espalhou por vias aquáticas conectadas na Amazônia, passando de um sistema fluvial para outro.

Proteger o Rio Amazonas dependerá de monitoramento, equipamentos limpos e comunicação rápida durante a curta janela antes de uma dispersão mais ampla.

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