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Jardins domésticos e poluição do ar: o que a revisão da UEL revela

Jovem cuidando de hortaliças em jardim urbano ao lado da rua com carros ao fundo.

A poluição do ar está entre as ameaças ambientais mais letais do planeta. Aproximadamente 99% da população mundial respira um ar que não atende aos limites considerados seguros.

Estimativas recentes associam esse problema a cerca de uma em cada oito mortes no mundo - um impacto que hoje disputa espaço com causas antigas e persistentes, como o tabagismo e a má alimentação.

Nesse cenário, os jardins costumam parecer aliados óbvios. São áreas verdes, cheias de folhas, com plantas nas quais muita gente confia para “puxar” a sujeira do ar.

A intuição soa plausível, mas uma ampla revisão recém-publicada concluiu que a base científica por trás dessa crença praticamente não existe.

Um grupo liderado pela Universidade do Leste de Londres (UEL) procurou evidências robustas de que jardins residenciais melhoram o ar que respiramos - e encontrou muito menos do que o esperado.

A mensagem não é que os jardins nos decepcionam. O problema é que quase ninguém avaliou isso do jeito certo.

Jardins ocupam uma área surpreendente

Jardins domésticos estão longe de ser um detalhe urbano. Só no Reino Unido, estima-se que existam 25,8 milhões de jardins, somando cerca de 2,4 milhões de acres (959.800 hectares).

O peso dessas áreas no território varia bastante. Em Londres, os jardins representam aproximadamente 41% da área total - bem acima do cerca de um quinto observado em cidades como Leeds.

É justamente por essa escala que a falta de respostas importa. Milhões de pessoas descansam, cultivam hortaliças e abrem as portas de casa para esses espaços todos os dias.

Seria de esperar que já houvesse um grande corpo de evidências sobre o que tanta vegetação faz com a qualidade do ar no entorno. O curioso é que esse acervo mal existe.

Não existe evidência direta

A triagem realizada pelos autores foi extensa. Eles vasculharam mais de 34.000 estudos e, ao final, mantiveram apenas 43 que tinham alguma relação entre jardins e poluição do ar.

Nenhum desses 43 trabalhos mediu diretamente se um jardim residencial reduz a poluição ou “limpa” o ar que as pessoas respiram em casa - mesmo após décadas de interesse por vegetação urbana. O total final foi zero.

“Most of us think of gardens as healthy green spaces, and they absolutely provide many important benefits. But when it comes to air quality, we simply don’t yet know enough,” disse a Dra. Karina Corada-Pérez.

“Plants can capture pollutants, but a garden is much more than a collection of individual plants. Its layout, boundaries, proximity to roads and buildings, and the way air moves through the space may all influence whether vegetation helps reduce pollution or allows it to accumulate.”

Como jardins diferem de parques

A revisão faz aqui uma separação importante. Boa parte das evidências de que árvores, sebes e paredes verdes conseguem reter poluição do ar vem de parques, “cânions” de rua e outros espaços verdes maiores - e não de jardins privados.

Nessas condições, a cobertura arbórea reduziu níveis de partículas grossas entre 7 e 24 por cento.

Jardins domésticos, porém, são outra história. Casas e prédios, muros, cercas, depósitos, carros estacionados e o plantio misto alteram o movimento do ar e criam padrões que não aparecem em áreas verdes mais abertas.

Em alguns casos, o plantio muito denso pode até atrapalhar. A vegetação espessa pode prender partículas nas folhas, ao mesmo tempo em que “segura” o ar parado na região logo atrás.

Ainda assim, parte dessa literatura mais ampla parece animadora. Em alguns estudos, sebes à beira de vias e paredes verdes reduziram a poluição por partículas nas proximidades em mais de 70 por cento.

Mas os resultados mudaram bastante conforme fatores como altura e espaçamento da vegetação, além das condições meteorológicas.

Alimentos perto de vias movimentadas

A revisão também volta o olhar para quem produz comida em casa.

Frutas, verduras e ervas cultivadas perto de ruas com tráfego intenso podem absorver poluentes liberados pelos veículos e, depois, levar essa carga para o prato.

Os metais são a principal preocupação. Pesquisas anteriores observaram chumbo se acumulando em cultivos feitos a cerca de 33 pés (10 metros) de tráfego pesado, às vezes acima dos limites de segurança europeus.

O tipo de folha parece influenciar o risco. Salsa e hortelã tenderam a concentrar mais contaminação do que raízes ou leguminosas - uma diferença associada às folhas largas e mais expostas.

Nada disso significa abandonar a horta. Os autores reforçam que produzir alimentos em casa continua sendo valioso e defendem orientações mais claras sobre onde e como plantar.

Escolher plantas fica mais complicado

Selecionar a planta “certa” não é tão simples quanto parece. Folhas ásperas, peludas ou cerosas tendem a reter partículas com mais eficiência.

Coníferas densas podem capturar partículas finas com especial força, graças às agulhas e à folhagem presente o ano todo. Só que o mesmo verde pode trazer custos pouco óbvios.

Algumas espécies liberam compostos naturais que reagem à luz solar e alimentam a formação de poluição secundária em períodos quentes. Outras produzem pólen altamente alergênico, agravando o sofrimento de quem tem rinite alérgica.

Até a manutenção cotidiana tem efeito. Cortar a grama, podar e usar ferramentas a gasolina podem adicionar emissões ou favorecer a liberação de compostos das plantas.

Transformar jardins em evidência

Em vez de oferecer “receitas” de plantio, o artigo defende a produção de evidências em residências reais.

Segundo os autores, recomendações baseadas em parques não podem ser tomadas como certas dentro dos limites de um quintal, onde o ar circula de acordo com regras próprias e teimosas.

“Because millions of people spend time in their gardens, grow food in them and open their homes onto them, we urgently need research in real domestic gardens,” disse a Dra. Corada-Pérez.

“Only then can we give homeowners, planners and policymakers reliable advice about which planting choices are most likely to support cleaner air.”

“Domestic gardens already support biodiversity, help cool our cities, reduce flood risk, provide space for growing food and improve our wellbeing.

“Understanding how air quality fits alongside those benefits could help us make better use of one of the most widespread – but least studied – forms of green infrastructure in our cities.”

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