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Meta compartilhada aumenta a conversa conectada entre crianças, mostra estudo das Universidades de Cambridge e Sussex

Quatro crianças sentadas em mesa montando blocos coloridos e usando canetas em sala de aula.

Brincar pode parecer algo simples, mas é nesse momento que muitas crianças aprendem a se comunicar, a resolver problemas e a compreender outras pessoas. Cada troca de falas durante a brincadeira ajuda a formar competências sociais essenciais.

Um estudo recente da University of Cambridge e da University of Sussex indica que a cooperação não depende apenas da personalidade: ela também varia conforme a tarefa que as crianças precisam realizar em conjunto.

Os dados mostram que ter uma meta compartilhada pode fortalecer bastante o trabalho em equipa, sobretudo entre colegas que não são amigos. Para pais e professores, isso traz pistas práticas sobre como organizar atividades.

O que é conversa conectada?

É comum duas crianças ficarem lado a lado e mexerem nos mesmos brinquedos. Ainda assim, brincar em paralelo nem sempre significa cooperação de verdade. Por isso, os pesquisadores analisaram um conceito chamado “conectividade”.

Conectividade descreve o quanto as crianças conseguem encadear ideias numa conversa. Quando uma criança responde diretamente ao que a outra acabou de dizer, esse trecho é contado como conversa conectada.

A conversa conectada é um sinal de coordenação real: as duas permanecem no mesmo assunto e vão construindo a brincadeira com base nas ideias uma da outra.

Esse tipo de comunicação permite que as crianças treinem escuta, negociação e a compreensão dos sentimentos e pensamentos do outro.

Quais crianças formaram uma equipa?

A pesquisa reuniu 152 crianças entre seis e oito anos, de cinco escolas no Reino Unido.

Os pesquisadores montaram duplas de colegas de turma. Algumas eram formadas por amigos próximos; outras, por crianças que não eram amigas. Em todas as duplas, as crianças eram do mesmo género e da mesma sala.

Antes das sessões, cada criança indicou os seus melhores amigos. Quando duas crianças se escolhiam mutuamente, a dupla era classificada como de amigos.

Se apenas uma escolhia a outra - ou se nenhuma escolhia a outra - a dupla entrava no grupo de não amigos. Os dois grupos apresentavam níveis semelhantes de competências linguísticas, o que evitou que a capacidade de falar influenciasse os resultados.

Como as crianças trabalharam em equipa

Cada dupla realizou duas atividades numa sala silenciosa da escola. Primeiro, houve uma brincadeira livre de cerca de oito minutos com um conjunto de casa na árvore da Playmobil.

A orientação foi mínima: não receberam instruções além de brincar da forma que quisessem, deixando a imaginação e a criatividade completamente abertas.

Depois, fizeram uma tarefa de desenho por aproximadamente seis minutos. O pesquisador desenhou um tronco simples e pediu que a dupla o transformasse numa ilustração completa de uma casa na árvore.

Havia apenas um bloco de papel e algumas canetas. Como os materiais eram limitados, as duas crianças precisavam partilhar recursos e coordenar ações para concluir o desenho.

Medindo o trabalho em equipa das crianças

Todas as conversas foram gravadas e transcritas com cuidado. No total, as crianças produziram mais de 13,000 turnos de fala ao longo das duas atividades.

A equipa avaliou cada frase para verificar se ela se ligava a algo que o parceiro tinha dito nos cinco segundos anteriores.

Em seguida, calcularam uma taxa de conectividade, que representava a percentagem de turnos conectados em relação ao total de turnos de fala. A análise considerou a dupla como unidade - isto é, a equipa - e não cada criança isoladamente.

Pesquisas anteriores do mesmo projeto já tinham apontado que a conectividade depende mais da parceria do que de características pessoais.

O que os resultados mostraram

Considerando todas as duplas, a conversa conectada foi maior na tarefa de desenho do que na brincadeira livre.

Em média, a conectividade passou de 0.47 durante a brincadeira livre para 0.51 durante o desenho orientado por meta. Isso sugere que alguma estrutura pode favorecer a cooperação.

A mudança mais marcante, porém, apareceu entre as duplas de não amigos. Nesse grupo, a conectividade subiu de 0.44 na brincadeira livre para 0.55 no desenho. Trata-se de um aumento forte.

Entre amigos, quase não houve variação. As duplas de amigos registaram 0.48 na brincadeira livre e 0.50 no desenho.

Por que os não amigos melhoraram

A Dra. Emily Goodacre, do Play in Education, Development and Learning (PEDAL) Research Centre, na University of Cambridge, disse que os resultados a surpreenderam.

“Quando vi os resultados pela primeira vez, pensei: ‘Isto não faz sentido – por que isto só aconteceria entre não amigos?’ A resposta provavelmente é que os amigos têm experiências compartilhadas e um entendimento intuitivo de como brincar juntos, mas os não amigos não têm essa familiaridade e podem se beneficiar de ter uma meta definida”, acrescentou a Dra. Goodacre.

Com frequência, amigos apoiam-se em memórias e rotinas comuns. A conversa flui com mais naturalidade porque ambos já se entendem. Já entre não amigos, essa história partilhada não existe. Uma meta clara introduz estrutura e estimula uma discussão mais focada, além de maior coordenação.

O que isso significa para a educação

O estudo também não encontrou diferença relevante entre meninos e meninas na conversa conectada. O contexto e a amizade tiveram mais peso do que o género, o que reforça como o desenho da atividade pode ser decisivo para a cooperação.

“Quando pensamos no desenvolvimento das crianças, tendemos a olhar para a criança individual – mas cada vez mais pesquisas estão a dizer para prestarmos atenção com quem elas estão a interagir e à situação mais ampla. Isto é importante quando pensamos em educação – especialmente em questões como como organizar atividades em grupo nas salas de aula”, explicou a Dra. Goodacre.

Tarefas com objetivos claros e compartilhados podem sustentar uma colaboração mais forte.

Uma estratégia simples

A pesquisa destaca uma mensagem central: cooperar não depende só de personalidade nem de uma habilidade social “natural”. O tipo de atividade e a relação entre parceiros moldam a comunicação.

Quando há uma meta compartilhada, dois colegas pouco próximos podem virar uma equipa mais conectada. Atividades estruturadas incentivam escutar, responder e trabalhar em conjunto.

Pais e professores podem usar essa ideia para criar ambientes de aprendizagem que reforcem comunicação, trabalho em equipa e desenvolvimento social.

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