Uma injeção simples às vezes parece doer mais do que o esperado. A explicação pode não estar apenas na agulha: aquilo que a pessoa ouve de outras pessoas também pode moldar a vivência.
Um estudo recente do Dartmouth College indica que a informação social consegue alterar como as pessoas sentem dor e esforço - e até como avaliam o sofrimento de outra pessoa.
Pesquisadores do Department of Psychological and Brain Sciences, em Dartmouth, investigaram como expectativas formadas a partir de pistas sociais influenciam a perceção.
Os dados mostram que a opinião alheia pode criar expectativas intensas, e essas expectativas acabam a alterar o que a pessoa de facto sente durante uma experiência.
Como a aprendizagem social molda as expectativas
No dia a dia, as pessoas aprendem observando e ouvindo os outros. Esse mecanismo é conhecido como aprendizagem social e ajuda a evitar erros e a aprender com mais rapidez.
Quando alguém fica a saber como outra pessoa viveu uma situação, tende a usar essa informação para antecipar o que pode acontecer consigo.
Por exemplo, se alguém relata que uma injeção médica foi muito dolorosa, outra pessoa pode passar a esperar a mesma dor - ainda antes de levar a picada.
Ao mesmo tempo, a informação social também pode introduzir viés. Quando se ouve que algo será doloroso ou difícil, a mente começa a preparar-se para esse desfecho.
Como o estudo de Dartmouth usou pistas sociais para criar expectativas
No estudo de Dartmouth, os participantes viam primeiro uma pista visual no ecrã do computador.
Essa pista aparecia como um conjunto de pontos. Os pesquisadores diziam aos participantes que os pontos representavam como dez participantes anteriores tinham avaliado a tarefa.
Na prática, porém, os pontos eram aleatórios. Não correspondiam a avaliações reais. Mesmo assim, essas pistas influenciaram o que os participantes esperavam sentir em seguida.
A equipa de pesquisa estruturou três tarefas distintas, cada uma desenhada para testar como as expectativas mudam a perceção.
Na primeira tarefa, os pesquisadores aplicavam calor no braço do participante. A sensação era dolorosa, mas mantida dentro de limites seguros.
A segunda tarefa consistia em assistir a vídeos curtos de pessoas com dor. Por exemplo, os participantes viam rostos a demonstrar desconforto.
A terceira tarefa avaliava esforço mental. Os participantes observavam dois objetos tridimensionais e precisavam rodar mentalmente as formas para decidir se eram iguais.
Expectativas mudaram as experiências
Em cada tarefa, havia três níveis de intensidade. Em alguns ensaios, a sensação era mais leve; noutros, mais forte.
Antes de iniciar cada tarefa, os participantes viam a pista social. Em seguida, indicavam o quanto esperavam que a tarefa fosse dolorosa ou difícil. Depois de completar a tarefa, avaliavam o que realmente tinham sentido.
Os resultados revelaram um padrão consistente. Quando a pista sugeria que outras pessoas tinham achado a tarefa muito dolorosa ou exigente, os participantes relatavam mais dor ou mais esforço.
Isso ocorria mesmo quando a tarefa em si permanecia idêntica. Ou seja, a expectativa influenciou a forma como a atividade foi vivida.
Influência social na dor
O efeito apareceu nas três tarefas: na dor sentida diretamente, na dor ao observar alguém a sofrer e no esforço mental.
"These findings have important implications for how people interpret others’ experiences," disse Aryan Yazdanpanah, Innovation PhD Fellow em Dartmouth.
"For example, if a person is truly in severe pain but others believe that the pain is not serious, this social belief may lead you to underestimate or overlook that person’s suffering."
"Similarly, when others describe an activity such as solving math problems as highly effortful, people may experience the same task as more mentally demanding."
Crenças moldam a nossa experiência de dor
Os pesquisadores também identificaram um padrão psicológico conhecido como viés de confirmação, que interfere na forma como as pessoas aprendem com as próprias experiências.
O viés de confirmação ocorre quando se dá mais atenção a informações que reforçam aquilo em que já se acredita e, ao mesmo tempo, se tende a ignorar o que desafia essas crenças.
"We found that a person will favor the evidence that aligns with their beliefs but will ignore or dampen those which do not align," disse Alireza Soltani, professor associado de psychological and brain sciences em Dartmouth.
No experimento, os participantes aprendiam mais com experiências que coincidiam com as expectativas. Se a pista indicava dor alta e a tarefa de facto era desagradável, a crença ficava ainda mais forte.
Quando a experiência era mais fácil do que o previsto, essa informação muitas vezes era deixada de lado.
Como as crenças se reforçam
O estudo também indicou que expectativas e experiências se alimentam mutuamente. Aquilo que se espera influencia a perceção - e o que se percebe passa a influenciar expectativas futuras.
Por exemplo, um participante que antecipava dor intensa tendia a relatar mais dor durante a tarefa. Essa vivência, por sua vez, aumentava a expectativa de dor nos ensaios seguintes.
Os pesquisadores observaram ainda outro comportamento. O que era sentido num ensaio por vezes afetava a expectativa no ensaio seguinte, mesmo quando a pista mudava.
Em outras palavras, as experiências recentes continuavam a influenciar crenças posteriores.
Por que a informação social importa hoje
No mundo atual, a informação social circula com muita velocidade. As pessoas leem avaliações, assistem a vídeos e partilham relatos online.
Essas opiniões partilhadas podem moldar expectativas antes mesmo de alguém testar uma atividade. Assim, crenças podem espalhar-se amplamente pelas redes sociais.
"Our findings may offer insight into why expectations can persist even without evidence to support them," disse Tor Wager, Diana L. Taylor Distinguished Professor of Neuroscience em Dartmouth.
"The dynamics we observed can create self-fulfilling prophecies-feedback cycles that affect many kinds of health conditions, including chronic pain and fatigue, as well as beliefs about other people."
O estudo de Dartmouth mostra que expectativas conseguem moldar com força a experiência humana. Aquilo que se ouve de outras pessoas pode influenciar como a dor é sentida, o quão difícil uma tarefa parece e como se julga o sofrimento de alguém.
Compreender esse efeito pode ajudar cientistas a melhorar a forma como informações sobre saúde e dor são comunicadas.
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