Cientistas identificaram uma nova espécie amazónica de uma linhagem antiga de cicadáceas. A planta recém-descrita consegue prosperar o ano inteiro em florestas permanentemente alagadas, inclusive com parte do caule sob a água.
A sobrevivência invulgar em pântanos pobres em oxigênio amplia o que se sabia sobre onde essas plantas com sementes tão antigas conseguem viver - e aumenta a urgência de proteger as áreas úmidas que as mantêm.
Vida em florestas inundadas
Nas florestas alagadas de forma permanente no norte de Loreto, no Peru, a nova cicadácea foi encontrada bem estabelecida em solo saturado, um cenário em que a maioria das suas parentes não resistiria.
Durante trabalho de campo em 2025, o Dr. Ricardo Zarate-Gomez, do Instituto de Pesquisa da Amazônia Peruana (IIAP), registou indivíduos saudáveis com a parte inferior do caule submersa, reforçando que essa linhagem tolera condições antes consideradas hostis.
Enquanto outras espécies do mesmo grupo costumam depender de terrenos com boa drenagem, esta manteve-se viável em substrato que permanece encharcado durante todo o ano.
Esse ambiente extremo reduz a distribuição conhecida da planta e abre espaço para investigar mais de perto como ela suporta a inundação constante.
Cicadácea adaptada a pouco oxigênio
Em solos alagados, a água ocupa os espaços antes cheios de ar; com isso, as raízes ficam sem oxigênio e podem morrer. A maior parte das plantas terrestres não aguenta o encharcamento e interrompe o crescimento ou desenvolve apodrecimento radicular.
Uma revisão de 2008 descreveu como a água preenche os poros do solo e obriga as células vegetais a produzir energia com muito pouco oxigênio.
Diferentemente da maioria das plantas com sementes dessa linhagem, a nova espécie manteve os tecidos vivos mesmo quando a água cobria a base do caule.
Essa tolerância permite a vida em pântanos sem períodos de secagem, mas também torna a planta dependente de áreas úmidas que frequentemente são drenadas pelas pessoas.
Dentro de uma linhagem antiga
Os taxonomistas deram à planta o nome Zamia urarinorum, e a descrição formal apresentou as características que a distinguem.
Entre as cicadáceas - plantas com sementes, folhas rígidas e estruturas reprodutivas em forma de cone - o género Zamia aparece sobretudo em ambientes tropicais de solo bem drenado.
Fósseis e uma análise de 2015 situaram a história evolutiva das cicadáceas muito no passado, há mais de 200 milhões de anos.
O rótulo de “fóssil vivo” pode ser enganoso; ainda assim, as linhagens já existiam quando os dinossauros percorriam a Terra, e as espécies atuais diversificaram-se posteriormente.
Zamia, um nome com significado
Batizada em homenagem ao povo Urarina, Zamia urarinorum foi encontrada em terras indígenas entre os rios Tigrillo e Urituyacu, em Loreto.
A gestão local manteve as áreas úmidas suficientemente intactas para o trabalho das equipas do IIAP e, ao mesmo tempo, garantiu espaço para a espécie persistir.
Em comunidades como Raya Yacu, Nuevo Horizonte e Puerto Rico, moradores orientaram as visitas e ajudaram os pesquisadores a registar onde as plantas ocorrem.
Ao vincular o nome científico a uma comunidade viva, a descoberta torna-se mais difícil de separar de decisões de proteção a longo prazo.
Limites na reprodução das cicadáceas
As sementes ficam em estruturas semelhantes a cones, e os pesquisadores relataram que tanto os cones quanto as sementes eram menores do que os de parentes próximos.
Como os indivíduos masculinos e femininos ocorrem em plantas separadas, a reprodução depende de ambos os sexos estarem suficientemente próximos e partilharem o mesmo ambiente.
Em populações pequenas, a remoção de um dos sexos por exploração madeireira ou alterações no regime de inundação pode levar a um declínio silencioso, deixando plantas férteis sem um parceiro por perto.
Mapeando a nova distribuição de uma cicadácea
A comparação com coleções botânicas e registros digitais ajudou a diferenciar Zamia urarinorum de espécies parecidas e a esclarecer onde vivem os seus parentes mais próximos.
Como folhas semelhantes podem ocultar diferenças marcantes, os botânicos analisaram características foliares e estruturas reprodutivas antes de estabelecer novos limites de distribuição.
Pelos alagados e terras firmes da Amazônia, muitas populações de Zamia ainda não foram estudadas com o devido cuidado, o que mantém lacunas sobre onde cada espécie ocorre.
Mapas mais precisos permitem que o planeamento evite áreas-chave e também orientam buscas futuras por plantas que permanecem escondidas em pântanos de difícil acesso.
Carbono nas áreas úmidas
As florestas de áreas úmidas amortecem cheias e armazenam carbono em solos encharcados; quando se perdem esses ambientes, as emissões podem aumentar e os rios podem mudar.
Nas turfeiras - áreas úmidas em que plantas mortas formam camadas espessas de turfa, em vez de se decompor - a saturação permanente reduz a decomposição e retém carbono por séculos.
Um artigo de 2014 estimou cerca de 3.5 bilhões de toneladas de carbono na bacia de turfa Pastaza-Marañón, no Peru.
Proteger uma planta rara de florestas alagadas também significa proteger os solos pantanosos que mantêm o carbono fora da atmosfera.
Ameaças às cicadáceas
Drenagem para agricultura, derrames de petróleo e a abertura de novas estradas podem empurrar florestas de áreas úmidas para o colapso antes mesmo de as equipas científicas concluírem os levantamentos.
A descida do lençol freático seca o solo e acelera a decomposição, enquanto a poluição pode revestir as raízes e bloquear o pouco oxigênio disponível.
Com uma distribuição conhecida restrita em Loreto, a equipa alertou que a espécie talvez já esteja ameaçada antes de qualquer avaliação oficial.
Sem salvaguardas rápidas, a descoberta pode acabar como um registo de uma espécie já a desaparecer do campo de visão.
Risco e realidade
O planeamento de conservação frequentemente começa com a IUCN, organização global que classifica o risco de extinção; os autores defenderam proteção acelerada.
Pelos critérios da IUCN, os avaliadores consideram tamanho da distribuição, declínios e ameaças antes de atribuir categorias como “Em Perigo”.
“Esta descoberta posiciona o nosso país como líder na pesquisa botânica de ecossistemas tropicais úmidos”, afirmaram cientistas do IIAP.
A proteção efetiva dependerá de regras locais e de fiscalização, já que um rótulo da IUCN, por si só, não impede a conversão de terras.
Pesquisa e conservação
A localização de Zamia urarinorum em florestas alagadas conectou uma história evolutiva profunda, uma biologia de sobrevivência incomum e uma paisagem de áreas úmidas sob pressão.
Os próximos passos podem incluir o mapeamento de mais populações e testes detalhados da tolerância ao baixo oxigênio, enquanto as ações de conservação definem se as áreas úmidas permanecerão intactas.
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