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IA e centros de dados: o custo oculto de energia e água, alerta a ONU

Homem analisando instalações industriais grandes com várias unidades de resfriamento em área seca ao pôr do sol.

Sem que os usuários percebam, os servidores que treinam sistemas de inteligência artificial (IA) e respondem a cada solicitação estão consumindo grandes volumes de energia e de água.

A discussão sobre impactos ambientais não começou agora, mas ganhou urgência com a adoção acelerada de ferramentas de IA. Os alertas mais recentes vieram da ONU, por meio de um relatório direto ao ponto sobre a tecnologia e de apelos públicos feitos por António Guterres.

"Os centros de dados, a infraestrutura global que alimenta a IA, poderão consumir 945 terawatts-hora de eletricidade por ano até 2030 - quase o triplo do consumo anual combinado de eletricidade do Paquistão, do Bangladesh e da Nigéria, países que, no seu conjunto, abrigam mais de 650 milhões de pessoas", sublinha o relatório produzido pela Universidade das Nações Unidas (UNU). Atualmente, se os centros de dados fossem um país, o seu consumo colocá-los-ia em 11.º lugar a nível mundial, logo atrás de França (468 TWh).

Além do carbono associado ao uso de energia, a demanda de água ligada à IA pode chegar, até o fim da década, a um volume equivalente às necessidades domésticas básicas anuais de 1,3 bilhão de pessoas. Já a ocupação territorial pode ultrapassar 14 500 quilômetros quadrados, algo como o dobro da área da região metropolitana de Jacarta, por causa da construção de centros que abrigam servidores.

A razão desse gasto elevado - e, portanto, dos efeitos ambientais - é direta: galpões gigantescos cheios de servidores que entregam respostas ao cliente, sempre que alguém faz uma pergunta ao ChatGPT, Gemini ou Claude, exigem muita energia para funcionar. Essa eletricidade pode vir de fontes renováveis (que, ainda assim, podem demandar água) ou de combustíveis fósseis, o que aumenta as emissões de CO2 na atmosfera. Soma-se a isso o calor produzido pelo próprio funcionamento: para manter as máquinas operando, é preciso resfriá-las, muitas vezes com sistemas que usam água.

Segundo Daniel Rocha, analista de mercados financeiros e comentador de geopolítica, "só na Europa, em 2030, o setor poderá gastar tanta água quanto trinta milhões de pessoas", de acordo com números da Agência Internacional de Energia e do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley.

Verdadeiro custo

"Chega de custos escondidos. Chega de impor o fardo àqueles que menos podem suportá-lo. É tempo de dizer toda a verdade. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa de ser honesta sobre o que nos custa hoje", disse António Guterres, secretário-geral da ONU, no mês passado, durante a Semana de Ação Climática, em Londres.

Além do discurso, Guterres anunciou uma iniciativa de transparência ambiental voltada à IA: a proposta pede que grandes empresas do setor publiquem de forma aberta o impacto ambiental das suas operações e assumam o compromisso de operar todos os seus centros de dados com energias renováveis até 2030.

De volta ao relatório, a estimativa é que o treinamento do GPT-3 tenha demandado 1,3 gigawatt-hora (GWh) de eletricidade, enquanto o GPT-4 teria consumido entre 50 e 70 GWh. Ainda assim, o foco do problema está menos no treinamento e mais no uso cotidiano: a utilização diária dos sistemas de IA responde por 80 a 90% do consumo energético. E, dentro desse uso, nem todas as tarefas têm o mesmo peso. Lembra da onda de criar imagens no estilo dos estúdios Ghibli? "Gerar uma única imagem com IA pode exigir mais de mil vezes a energia necessária para uma simples classificação de texto, enquanto a geração de vídeo exige recursos ainda maiores", salienta a ONU, que considera a geração de vídeo uma "crise ambiental emergente".

Em 2025, Sam Altman, da OpenAI, disse que apenas escrever "por favor" ou "obrigado" custava milhões de dólares em energia, mas que talvez fossem "dezenas de milhões de dólares bem gastos". "Nunca se sabe", acrescentou. Para Kurtis Beavers, gestor de design da Microsoft, manter uma interação educada com a máquina ajuda a "gerar resultados colaborativos e respeitosos".

Impacto local

Para as comunidades que recebem centros de dados, os ganhos globais frequentemente se traduzem em dificuldades locais, como pressão adicional sobre o abastecimento de água e a oferta de energia.

"Algumas comunidades perceberam isto antes dos governos, o que diz algo sobre os governos. Em Dublin, a autarquia pediu uma moratória sobre novos centros, depois de a cidade ficar sem capacidade na rede elétrica. Em San Marcos, no Texas, a assembleia municipal rejeitou um projeto, depois de mais de cem pessoas intervirem numa única reunião, porque tinham percebido que o centro de dados ia usar a água do aquífero da região. Em Inglaterra, um tribunal deu razão aos opositores de um centro de dados de 90 megawatts, que o próprio governo admitiu ter aprovado por erro", nota Daniel Rocha. "Este relatório não é um argumento contra a inteligência artificial, uma transformação tecnológica que está a melhorar a vida de milhares de milhões de pessoas em todo o Mundo", afirmou o professor Kaveh Madani, da UNU, que liderou a equipa de investigação.

"É um apelo para que a utilizemos de forma responsável e para que abordemos os seus impactos indesejados de forma proativa, de modo a torná-la sustentável e equitativa. Temos uma janela de oportunidade estreita para garantir que a espinha dorsal da revolução tecnológica da nossa era se desenvolva dentro dos limites planetários e que as comunidades que fornecem os minerais essenciais para o avanço da inteligência artificial, bem como aquelas que acolhem a sua infraestrutura e os resíduos eletrónicos, também estejam entre as que dela beneficiam", apontou.

Ruído constante

Entre os efeitos sentidos por moradores próximos, aparece o ruído contínuo de milhares de máquinas em operação. Ventiladores e sistemas de resfriamento trabalham sem parar para segurar a temperatura, e diversos relatos na imprensa norte-americana descrevem bairros que, de repente, passaram a ter um centro de dados como vizinho - com impacto imediato no descanso e na rotina das pessoas.

Pormenores

Compromissos climáticos

Google e Amazon comunicaram aumentos expressivos nas emissões de gases de efeito estufa, impulsionados pela corrida para erguer infraestrutura de inteligência artificial - movimento que afasta ainda mais as big techs das metas de neutralidade de carbono.

Mais poluição

As emissões totais do Google aumentaram 82% desde 2019 e mais de 18% só no ano passado, apesar de a empresa se ter comprometido a reduzi-las para metade até 2030. As emissões da Amazon aumentaram 58% no mesmo período e mais de 16% no ano passado, apesar do compromisso de alcançar a neutralidade carbónica até 2040.


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