Talvez você nunca tenha reparado nisso, mas há um padrão que se repete em todo voo comercial: durante a decolagem e o pouso, você não verá um tripulante de cabine sentado de qualquer jeito.
Para que um avião de linha seja autorizado a operar, o fabricante precisa demonstrar que a tripulação consegue evacuar toda a aeronave em menos de 90 segundos, mesmo com metade das saídas bloqueadas. Essa é uma exigência de certificação codificada pela OACI (Organização da Aviação Civil Internacional) e válida para a aviação comercial; por isso, comissários e comissárias de bordo (ou PNC, de Personnel Navigant Commercial) têm de seguir um protocolo de segurança extremamente preciso.
Todo mundo já viu a demonstração antes da aeronave entrar na pista - coletes salva-vidas, máscaras de oxigênio, saídas de emergência e afins. Mas existe outro procedimento, menos óbvio, que acontece no momento crítico do voo. Na decolagem, eles ficam presos aos seus assentos rebatíveis e mantêm as mãos sempre enfiadas sob as coxas. À primeira vista, parece irrelevante; ainda assim, nenhum avião poderia decolar se as mãos deles estivessem colocadas de outro jeito.
Um gesto que salva vidas
Do ponto de vista estatístico, a maior parte dos incidentes acontece nas fases de decolagem e de aterrissagem, porque o avião está muito perto do solo ou voando a uma velocidade próxima da de estol (entre 200 e 280 km/h, dependendo da aproximação). Um exemplo recente foi o acidente da Air India em junho passado, que ocorreu apenas 32 segundos depois de a aeronave sair do asfalto.
No vocabulário da aviação, esse período é conhecido como os “11 minutos”. Esse intervalo - que sozinho reúne 80 % das catástrofes - é dividido em dois momentos principais: os três minutos após a decolagem e os oito minutos que antecedem o pouso. Nessas duas etapas, a margem de ação é praticamente inexistente. Se um motor falha ou se ocorre um erro de pilotagem a 10 000 metros de altitude, os pilotos ainda conseguem ganhar tempo para reagir; já em baixa altitude, cada segundo faz diferença.
Como a “brace position” reduz lesões na cabine
Os PNC têm duas funções centrais: garantir o conforto dos passageiros, claro, mas também atuar como especialistas em segurança, aptos a administrar qualquer situação de risco. Observe durante o táxi: eles permanecem nos assentos rebatíveis, com as costas firmes no encosto, os pés bem apoiados no chão e as mãos sob as coxas, com a palma voltada para cima. Essa postura recebe o nome de “brace position”: em caso de impacto ou de turbulência intensa, ela evita que os braços sejam arremessados sem controle, diminuindo o risco de fraturas ou luxações nos membros superiores.
O que é a “silent review” durante a decolagem e o pouso
Enquanto sustentam essa posição desconfortável, a mente trabalha no máximo e a atenção não pode cair, porque eles precisam realizar a “silent review”. Nesse processo, procuram sinais de perigo do lado de fora (fumaça, ruídos suspeitos), repetem mentalmente os procedimentos de evacuação e identificam as saídas e os equipamentos de emergência.
Esse nível de foco extremo vai até a aeronave atingir cerca de 1 500 ou 3 000 pés (457 e 914 metros, aproximadamente) e permanece muito alto até a marca de 10 000 pés (em geral por volta de 10 000 pés, ou 3 048 metros).
A “brace position” e a “silent review” são tão incorporadas à rotina que um PNC - mesmo com 20 anos de experiência -, se for pego divagando ou conversando durante a decolagem/aterrissagem, corre um risco enorme. A consequência pode ser um afastamento imediato, e até uma demissão: segurança não é brincadeira quando se está dentro de um enorme tubo pressurizado cortando o céu a 950 km/h, a 12 000 metros acima do solo!
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