Saunas sempre foram lugares de descanso, recuperação e, vez ou outra, até palco de alguma negociação. Eu, porém, nunca me dei bem com elas: acho apertado demais, abafado demais e sempre fico com a nítida impressão de que o calor queimou os pelinhos do meu nariz.
A gota d’água foi assistir àquele episódio de Os Simpsons em que o Homer fica preso numa sauna e sai de lá parecendo uma amêijoa no vapor - milagrosamente vivo. Depois disso, não entrei em nenhuma.
Cultura da sauna: tradições e experiências bem diferentes
Mesmo com a minha resistência, a cultura da sauna é ampla e variada, atravessa fronteiras e tem histórias muito diferentes. Embora sejam parte essencial da vida escandinava, sobretudo na Finlândia, as saunas também aparecem em tradições japonesas, mexicanas e de povos indígenas norte-americanos. E há de tudo para experimentar - de sessões de ioga e desenho de modelo vivo até levar “chicotadinhas” leves com ramos de bétula. Cada um com as suas preferências.
Nos últimos anos, a ideia de “refresco” ligada à sauna ganhou um novo significado. No Reino Unido, mais gente tem ido direto para a sauna - e menos para o bar - como nunca.
Como um novo ponto de encontro social e de bem‑estar, que mistura elementos das culturas de bar e de sauna, isso faz sentido.
Sauna e álcool: por que alguém misturaria bebida com 80°C?
Mas e quando a pessoa resolve ir além e beber álcool - antes, durante e depois da sessão?
Por que, afinal, combinar bebida com um ambiente a 80°C? Talvez seja a união “natural” de dois rituais sociais: relaxar numa sauna e tomar um copo com amigos. Ou pode atrair o hedonista em busca de novidades, prazer e euforia.
Ainda assim, fica a pergunta: quais são os efeitos - e os riscos - de beber álcool na sauna?
Vaporizar ou não vaporizar? Eis a questão
Antes, vale olhar para os possíveis benefícios. Afinal, deve haver algo além de “desentupir” alguns poros. Existe até um ditado que descreve a sauna como “a farmácia do homem pobre”.
Diversos estudos investigaram potenciais ganhos para a saúde associados ao uso de saunas. Por exemplo, investigadores japoneses avaliaram a terapia Waon - literalmente, terapia de calor suave (um tratamento em sauna de temperatura mais baixa) - em pessoas com doença cardíaca isquémica, em que artérias estreitadas aumentam o risco de enfarte.
Os resultados mostraram evidências de melhoria clínica nesses pacientes. Outros trabalhos também relataram benefícios em condições como doença arterial periférica e até na recuperação após um enfarte.
O uso de sauna pode ainda ajudar no controlo da pressão alta e de algumas doenças pulmonares. Há pesquisas que também apontam efeitos como melhor cicatrização de feridas e até menor risco de desenvolver demência e doença de Alzheimer.
O calor aperta
Só que não é tudo vapor e serenidade. Para compreender os perigos - principalmente quando entra álcool na história - é preciso entender como o corpo reage ao calor e à bebida.
O hipotálamo, uma região profunda do cérebro, coordena a nossa temperatura central. Quando estamos no calor, ele aumenta o fluxo de sangue para a pele e intensifica a transpiração, ajudando o corpo a arrefecer. Só que isso também eleva o risco de desidratação. Se somarmos álcool - um diurético que faz perder ainda mais líquido - o risco cresce muito.
Além disso, álcool e temperaturas elevadas podem mexer com o sistema cardiovascular, muitas vezes reduzindo a pressão arterial e acelerando a frequência cardíaca. Esse cenário pode favorecer alterações perigosas do ritmo do coração (arritmias).
Há ainda o efeito no cérebro. O álcool, obviamente, piora o julgamento e a coordenação - justamente duas coisas que convém manter em dia num ambiente com calor intenso, superfícies escorregadias e água a escaldar.
Juntando tudo, o resultado pode ser uma pessoa desidratada, sobreaquecida e intoxicada, com o coração disparado e a pressão a cair. Podem surgir tontura, desmaios e confusão, o que aumenta o risco de quedas, queimaduras ou até afogamento.
Desmaiar ou perder a consciência dentro da sauna pode ser muito perigoso. Um exemplo marcante vem de um caso publicado na Revista Americana de Medicina Forense e Patologia, em que uma pessoa sofreu lesões graves, incluindo queimaduras, com apenas sete minutos de exposição à sauna - tragicamente, com desfecho fatal. Outro estudo, da Finlândia, encontrou uma associação crescente entre mortes acidentais em saunas e intoxicação alcoólica.
Recomendações de segurança: o que fazer (e o que evitar)
A principal mensagem aqui é simples: se for beber, deixe para depois da sessão - não antes nem durante. Quem estiver intoxicado deve evitar saunas por completo ou, no mínimo, ficar sob supervisão rigorosa.
E as orientações básicas continuam a valer: manter sessões curtas, arrefecer o corpo depois (com um mergulho ou um duche) e reidratar com bebidas sem álcool.
Embora a ciência sobre saunas ainda esteja a evoluir, o apelo de milhares de anos fala por si. Há benefícios reais - mas misturar calor com álcool pode virar um “coquetel” que queima mais do que acalma.
Dan Baumgardt, Professor sénior, Escola de Fisiologia, Farmacologia e Neurociência, Universidade de Bristol
Este artigo foi republicado de A Conversa sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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