Muitas competências exigem anos de treino até serem dominadas. Ainda assim, mesmo quem as executa com excelência muitas vezes não consegue explicar, com precisão, o que faz para chegar a esse resultado.
As pessoas conseguem apresentar o básico, porém os detalhes mais sutis continuam difíceis de colocar em palavras. Essas habilidades silenciosas, quase impossíveis de descrever, ficam em segundo plano no funcionamento do cérebro.
A ciência chama isso de conhecimento tácito: aquilo que alguém sabe, mas não consegue explicar com facilidade. Uma parcela enorme da perícia humana mora nesse território. Um cirurgião, um mecânico ou um atleta costuma agir por intuição moldada por prática repetida, e não por regras explícitas.
Um estudo recente indica que parte desse conhecimento oculto talvez não seja tão inacessível quanto se imaginava. Os pesquisadores observaram que os movimentos dos olhos podem denunciar o momento em que o cérebro, de forma discreta, aprende a realizar uma tarefa melhor.
O que o conhecimento tácito realmente significa
A noção de conhecimento tácito remonta ao cientista e filósofo Michael Polyani. Em meados do século XX, ele sintetizou uma ideia simples e marcante: “sabemos mais do que conseguimos dizer”.
Para Polyani, grande parte das habilidades humanas surge de um saber interno que parece natural, mas resiste à explicação.
Alguém pode reconhecer um rosto imediatamente e, ainda assim, ter dificuldade para enumerar todos os traços que tornam aquela face identificável. O mesmo ocorre em tarefas complexas que dependem de observação e de julgamentos rápidos.
Por décadas, pesquisadores já vinham percebendo sinais desse conhecimento tácito em áreas como a análise de imagens médicas. Radiologistas, por exemplo, às vezes identificam anomalias quase no instante em que olham, mas não conseguem detalhar completamente quais pistas visuais motivaram a decisão.
Cientistas buscam pistas nos olhos
Pesquisadores do MIT investigaram recentemente se seria possível detectar essa expertise escondida por meio de sinais biológicos sutis.
O estudo foi liderado por Alex Armengol-Urpi, cientista pesquisador do Departamento de Engenharia Mecânica do MIT.
“Como seres humanos, temos muito conhecimento, parte dele é explícito e conseguimos traduzir em livros, enciclopédias, manuais, equações. O conhecimento tácito é aquilo que não conseguimos verbalizar, que fica escondido no nosso inconsciente”, disse Armengol-Urpi.
“Se conseguirmos tornar esse conhecimento explícito, podemos então permitir que ele seja transferido com mais facilidade, o que pode ajudar na educação e na aprendizagem em geral.”
Acompanhando a aprendizagem em tempo real
Para testar a ideia, a equipe montou um experimento com 30 voluntários. Cada pessoa observou mais de 120 imagens exibidas em uma tela.
Em cada imagem havia duas formas posicionadas em lados opostos. As formas podiam ser quadrados, triângulos ou círculos, com diferentes cores e padrões.
A tarefa era classificar cada imagem como pertencente ao grupo A ou ao grupo B. As regras de classificação dependiam de uma combinação complexa de cor, forma e padrão.
Um ponto crucial: apenas um dos lados de cada imagem realmente importava para a resposta correta. O outro lado era apenas ruído visual sem significado.
Os voluntários não recebiam instruções sobre como fazer a classificação. No começo, eles arriscavam palpites - fase que os pesquisadores trataram como o estágio de iniciante. Conforme mais imagens eram vistas, a taxa de acerto aumentava aos poucos.
Movimentos oculares e atividade cerebral
Enquanto os participantes realizavam a tarefa, câmeras registravam para onde seus olhos se deslocavam. A equipe também mediu a atividade cerebral por eletroencefalografia (EEG).
As imagens tinham um detalhe importante: cada forma “piscava” em uma frequência ligeiramente diferente, imperceptível para os participantes.
As ondas cerebrais se sincronizavam com essas piscadas, o que permitiu aos cientistas identificar em qual forma cada pessoa estava concentrando a atenção.
Ao cruzar o mapa dos movimentos oculares com os sinais do cérebro, surgiu um padrão. No início do experimento, os voluntários percorriam os dois lados de cada imagem com o olhar. Como ainda estavam chutando, tentavam coletar o máximo de informação possível.
Conhecimento escondido no cérebro
Mais adiante, algo mudou. À medida que a precisão melhorava, a atenção passava a se concentrar em apenas um lado da imagem - justamente o lado que continha as informações necessárias para classificar corretamente. Sem perceber, os participantes haviam “descoberto” a pista visual útil.
No entanto, quando responderam a um questionário descrevendo a estratégia usada, afirmaram que examinavam a imagem inteira. Eles não notaram que o foco tinha se estreitado.
“Eles estavam, inconscientemente, direcionando a atenção para a parte da imagem que era de fato informativa”, observou Armengol-Urpi. “Então o conhecimento tácito que eles tinham estava escondido dentro deles.”
Transformando habilidade oculta em conhecimento utilizável
Em seguida veio a etapa mais interessante. Os pesquisadores mostraram aos participantes os mapas dos movimentos oculares e da atividade cerebral. Esses registros evidenciavam como a atenção tinha migrado do comportamento de iniciante para um padrão mais experiente.
Depois de enxergar esse desenho, os participantes passaram a se apoiar nele. E a precisão de classificação aumentou ainda mais.
O resultado sugere que, em alguns casos, o conhecimento escondido pode ser trazido à tona e convertido em algo ensinável.
“Atualmente, estamos ampliando essa abordagem para outros domínios em que o conhecimento tácito desempenha um papel central”, disse Armengol-Urpi.
“Acreditamos que o princípio subjacente – capturar e reforçar a expertise implícita por meio de sinais fisiológicos – pode se generalizar para uma ampla variedade de domínios perceptivos e baseados em habilidades.”
O que isso pode significar para a aprendizagem
Muitas áreas dependem de julgamento visual apurado. Médicos analisando radiografias procuram alterações mínimas que indiquem doença. Profissionais de ofícios especializados identificam padrões discretos nos materiais. Atletas respondem a sinais visuais rápidos durante uma competição.
Nessas situações, iniciantes costumam ter dificuldade porque especialistas nem sempre conseguem explicar exatamente o que estão percebendo.
Esse trabalho aponta um caminho promissor. Ao rastrear onde especialistas olham e como o cérebro reage, educadores podem capturar padrões ocultos de atenção e transmiti-los a quem está aprendendo.
A experiência humana provavelmente sempre envolverá uma mistura de instinto e vivência. Ainda assim, ferramentas capazes de revelar hábitos inconscientes podem ajudar pessoas a adquirir competências complexas com mais rapidez do que nunca.
O estudo completo foi publicado na revista Revista de Engenharia Neural.
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