Uma passageira francesa do navio de cruzeiro MV Hondius testou positivo para hantavírus, somando-se ao caso de um cidadão dos Estados Unidos - o primeiro conhecido após o resgate.
Entre os cinco franceses repatriados e colocados em isolamento, em Paris, o quadro clínico de uma mulher "infelizmente, piorou durante a noite" e "os testes deram positivo", afirmou nesta segunda-feira a ministra da Saúde da França, Stéphanie Rist, em entrevista à rádio France Inter. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, marcou para esta tarde uma reunião para tratar do assunto.
As autoridades de saúde dos Estados Unidos confirmaram durante a madrugada que o norte-americano infectado é um dos 17 retirados do MV Hondius e reforçaram que ele não apresenta sintomas. A estratégia de contenção já está delineada: os norte-americanos serão levados primeiro para a Universidade de Nebraska, que conta com uma unidade de quarentena financiada pelo Governo federal, para verificar se houve contato próximo com pessoas sintomáticas e avaliar o nível de risco de disseminação do vírus.
"Um passageiro será transportado para a Unidade de Biocontenção do Nebraska após a chegada, enquanto os outros passageiros irão para a Unidade Nacional de Quarentena para avaliação e monitorização", declarou a porta-voz do Centro Médico de Nebraska, Kayla Thomas.
Horas antes, Sébastien Lecornu havia escrito na rede social X que um dos cinco franceses retirados do MV Hondius e repatriados no domingo para a França apresentou “sintomas no avião de repatriamento”. "Estes cinco passageiros foram imediatamente colocados em isolamento rigoroso até nova ordem, estão a receber cuidados médicos e serão submetidos a testes e a um exame de saúde", acrescentou.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 42 dias de quarentena para quem esteve no navio, mas cada país é livre de tomar uma decisão, disse no domingo o diretor-geral da agência da ONU. A indicação de 42 dias é "com seguimento ativo", em casa ou em uma unidade de saúde, para tripulantes e passageiros do MV Hondius após a saída do paquete.
Repatriamento termina esta segunda-feira
O cruzeiro "MV Hondius", atingido por um surto de hantavírus, chegou na madrugada de domingo a Tenerife, no arquipélago espanhol das Canárias; ainda no domingo, 94 pessoas já haviam sido repatriadas. Essa operação sem precedentes será encerrada nesta segunda-feira, com o retorno dos demais passageiros - com exceção da tripulação, que seguirá viagem até os Países Baixos.
Os 14 cidadãos espanhóis foram os primeiros a deixar a embarcação e foram transportados para o hospital Gómez Ulla, em Madri, onde irão cumprir um período de quarentena. Todos foram recebidos com aplausos. Segundo o jornal El Mundo, cada passageiro ficou em um quarto individual e sob vigilância máxima, com aferição de temperatura várias vezes ao dia.
De acordo com um balanço apresentado em entrevista coletiva no local pela ministra da Saúde da Espanha, Mónica García, até agora foram retirados do navio, em Tenerife (Canárias), 94 tripulantes e passageiros de 19 nacionalidades desde as 9h30 (hora local e em Lisboa).
Essas 94 pessoas foram transportadas e repatriadas em oito voos para Madri (14), França (5), Canadá (4), Países Baixos (26), Reino Unido (22), Irlanda (2), Turquia (3) e Estados Unidos (18).
O navio de cruzeiro "MV Hondius" permanece ancorado desde a manhã no porto de Granadilla, em Tenerife, enquanto os repatriamentos acontecem a partir do aeroporto de Tenerife Sul, a pouco mais de 10 quilômetros.
Segundo dados do armador, a empresa Oceandrive, o paquete - que esteve em quarentena em Cabo Verde e tem bandeira dos Países Baixos - chegou às Canárias com 147 pessoas de 23 nacionalidades a bordo, incluindo tripulantes, passageiros e equipes médicas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês).
Após os desembarques e repatriamentos de sábado, estão previstos mais dois voos na segunda-feira à tarde: um para a Austrália (com seis pessoas) e outro para os Países Baixos (com 18), descrito como um "avião vassoura", que levará passageiros e tripulantes que, por algum motivo, não embarcaram nos voos anteriores.
A ministra espanhola afirmou que 34 tripulantes devem permanecer a bordo para prosseguir a viagem e conduzir o "MV Hondius" até Roterdã, nos Países Baixos.
Dois testes negativos em Espanha
Se Estados Unidos e França receberam notícias menos favoráveis, a Espanha teve um alívio. Duas espanholas que haviam mantido contato próximo no avião com a vítima fatal holandesa, infectada com hantavírus, tiveram resultado negativo, apesar de uma delas ter apresentado inicialmente sintomas compatíveis com a doença. A informação foi divulgada pela ministra da Saúde, Mónica García, citada pelo El País, ao revelar os resultados dos testes PCR.
Conforme o Governo espanhol e o armador, o navio deve reabastecer em Tenerife na manhã de segunda-feira para poder retomar a viagem à tarde, logo após os últimos desembarques programados.
Hoje, passageiros e tripulantes foram levados do porto de Granadilla até o aeroporto de Tenerife Sul em veículos militares, usando máscaras e macacões completos de proteção sanitária, e desembarcaram diretamente na pista, já na entrada dos aviões.
Os repatriamentos vêm sendo realizados com aeronaves fretadas por diferentes países e também por voos da União Europeia, dentro do mecanismo europeu de proteção civil.
Coordenada por Espanha, Países Baixos, OMS e União Europeia, a operação envolve ou envolveu mais de 20 países e é "inédita, de uma envergadura internacional sem precedentes", como definiu Mónica García.
Do lado espanhol, a mobilização em Tenerife reúne cerca de 250 integrantes das forças de segurança e 40 militares, além de equipes médicas de órgãos do Estado, do serviço regional de saúde das Canárias e da Cruz Vermelha.
Mónica García ressaltou que a operação de domingo nas Canárias transcorreu com "total normalidade e total segurança" e que a expectativa é de que, na segunda-feira, o processo se conclua e o "MV Hondius" deixe Tenerife ao fim da tarde.
OMS recomenda 42 dias de quarentena
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, afirmou que a OMS já emitiu uma recomendação de 42 dias de quarentena, "com seguimento ativo", em casa ou em uma unidade de saúde, para tripulantes e passageiros do "MV Hondius" após a saída do paquete. "É um conselho claro", a OMS "aconselha os países, não impõe", e cada país adotará os protocolos que considerar mais pertinentes, frisou.
Ele reconheceu que "há riscos" se não houver quarentenas, mas reiterou que a OMS não obriga nenhum país a seguir "uma proposta". Espanha, Reino Unido e França anunciaram que seus cidadãos que estavam no cruzeiro vão cumprir quarentena; outros países, como os Estados Unidos, admitiram não adotar esse tipo de medida.
Até domingo, a OMS havia confirmado seis casos entre oito suspeitas de infecção por hantavírus em pessoas que viajaram no navio. Três pessoas morreram, e nenhum dos doentes ou suspeitos de estarem infectados estava a bordo quando o navio chegou às Canárias.
A embarcação vinha da Argentina, cruzando o Atlântico Sul, e no fim de semana passado provocou um alerta sanitário internacional. Em geral, o hantavírus é transmitido por roedores infectados. A variante identificada no paquete, o hantavírus Andes, é rara e pode ser transmitida de pessoa para pessoa. No início, os sintomas de infecção por hantavírus costumam se parecer com os da gripe, como tosse, fadiga e dores de cabeça e musculares. Dependendo da cepa, o hantavírus pode causar infecção pulmonar ou renal.
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