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Deserto do Atacama no Chile: nematódeos revelam vida escondida sob o solo

Cientista em jaleco branco coleta amostra de solo no deserto com microscópio e frascos ao lado.

O Deserto do Atacama, no Chile, parece um lugar seco, empoeirado e vazio. Muita gente imagina que nada conseguiria viver ali. No entanto, cientistas descobriram que há vida escondida logo abaixo do solo.

Um estudo recente revela que a terra do Atacama está repleta de vermes minúsculos chamados nematódeos.

Uma equipa internacional liderada pela Universidade de Colónia analisou esses animais microscópicos para compreender de que forma a vida se mantém num dos ambientes mais severos do planeta.

Vida num deserto extremo

O Atacama é considerado um dos lugares mais áridos do mundo. Em algumas áreas, chove muito pouco ao longo do ano. Além disso, o solo é salgado e, em determinados pontos, chega a conter elementos nocivos, como o arsénio.

Apesar de condições tão difíceis, a vida encontra caminhos. Os cientistas investigaram seis áreas distintas do deserto, incluindo regiões de alta montanha, margens de lagos salgados, oásis de nevoeiro na faixa costeira e grandes dunas de areia.

Cada local apresenta condições ligeiramente diferentes - e, com isso, sustenta conjuntos diferentes de formas de vida microscópicas.

Vermes minúsculos com um papel enorme

Os nematódeos são vermes extremamente pequenos que vivem no solo. Sem um microscópio, não é possível vê-los.

Mesmo assim, têm um papel importante na manutenção da saúde do solo. Alguns alimentam-se de bactérias; outros consomem fungos ou plantas. Há ainda os que caçam outros organismos pequenos.

A equipa de investigação recolheu centenas de amostras de terra e identificou 36 grupos diferentes, ou géneros, de nematódeos. Isso indica que o solo do deserto é muito mais vivo do que a superfície sugere.

“Os solos são importantes para o funcionamento de um ecossistema, por exemplo para o armazenamento de carbono e o fornecimento de nutrientes. Por isso é tão importante compreender os organismos - ou seja, não micróbios, mas animais multicelulares - que vivem ali”, disse o Dr. Philipp Schiffer.

“Ainda há poucos dados sobre solos em ecossistemas extremos como o Deserto do Atacama.”

Lugares diferentes, comunidades diferentes

Nem todas as partes do deserto apresentaram os mesmos tipos de nematódeos. Algumas famílias desses vermes surgiram em quase todas as áreas. Outras, porém, apareceram apenas em locais específicos.

Por exemplo, zonas húmidas salinas conhecidas como salars mostraram comunidades diferentes das observadas nas dunas de areia. Já os oásis de nevoeiro próximos à costa sustentaram uma combinação própria de espécies. Até mudanças pequenas no ambiente podem determinar quais organismos conseguem sobreviver.

Em certos pontos, a rede alimentar do solo pareceu simples e frágil. Em outros, mostrou-se mais estável. Isso indica aos cientistas que algumas áreas do deserto podem ser mais sensíveis a impactos causados por atividade humana ou pelas mudanças climáticas.

Pequenas diferenças de clima fazem diferença

Os cientistas procuraram entender o que controla a quantidade de tipos de nematódeos em cada local. O clima revelou-se um fator decisivo.

Áreas que recebem um pouco mais de chuva, em geral, apresentaram maior variedade de nematódeos. As variações de temperatura ao longo do ano também tiveram grande influência. Locais com diferenças mais marcadas entre as estações tendem a sustentar mais diversidade.

Em outras palavras: mesmo num deserto extremamente seco, pequenas alterações em chuva e temperatura podem ter grande impacto na vida que existe debaixo do chão.

Uma forma surpreendente de reprodução

Os investigadores também avaliaram como esses vermes se reproduzem. Alguns nematódeos reproduzem-se sexualmente, o que significa que precisam de machos e fêmeas.

Outros reproduzem-se de forma assexuada. Na reprodução assexuada, uma única fêmea consegue gerar descendentes sem a presença de um macho.

Os cientistas constataram que os nematódeos de altitudes mais elevadas tinham maior probabilidade de se reproduzir assexuadamente. Em ambientes muito severos, isso pode ser vantajoso: um único indivíduo consegue iniciar rapidamente uma nova população sem depender de um parceiro.

Esse padrão reforça uma ideia conhecida como partenogénese geográfica. Ela sugere que a reprodução assexuada é mais comum em locais extremos, como áreas de alta montanha.

Por que esta pesquisa é importante

As regiões áridas cobrem cerca de 40% da superfície terrestre. Com as mudanças climáticas, espera-se que muitas áreas fiquem ainda mais secas no futuro.

Ao estudar a vida no Deserto do Atacama, os cientistas conseguem compreender melhor como os organismos podem reagir ao aumento da seca.

“À luz do aumento da aridez global, que está a afetar cada vez mais regiões no mundo, estes resultados tornam-se cada vez mais relevantes”, disse o Professor Schiffer.

“Compreender como os organismos se adaptam em ambientes extremos e quais parâmetros ambientais fazem com que se disseminem pode ajudar a melhorar a estimativa das consequências ecológicas das mudanças climáticas.”

À primeira vista, o Deserto do Atacama pode parecer sem vida. Mas, sob a superfície, vermes minúsculos resistem, adaptam-se e sustentam ecossistemas escondidos. A história deles mostra que a vida pode ser mais resistente e mais flexível do que muitos imaginam.

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