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Estudo da Universidade de Toronto associa alimentos ultraprocessados na primeira infância a dificuldades emocionais e comportamentais

Pai e filho brincam com figuras coloridas na mesa da cozinha iluminada pela luz natural.

O que crianças pequenas comem nos primeiros anos pode impactar mais do que o crescimento físico. As escolhas alimentares nessa fase também podem influenciar emoções, comportamento e desenvolvimento social.

Atualmente, muitas crianças consomem grandes quantidades de lanches industrializados, refeições prontas e bebidas adoçadas, já que esses produtos são rápidos e práticos para famílias com rotinas corridas. Cientistas vêm investigando como esse padrão alimentar pode repercutir enquanto o cérebro e o comportamento ainda estão em formação.

Pesquisadores da Universidade de Toronto analisaram recentemente essa questão e observaram que um consumo mais elevado de alimentos ultraprocessados no início da infância está associado a mais dificuldades emocionais e comportamentais.

O trabalho traz uma nova perspectiva sobre como decisões alimentares do dia a dia durante os anos de pré-escola podem se relacionar com a forma como as crianças se sentem e agem mais adiante.

A alimentação precoce molda o comportamento

A primeira infância é um período em que as crianças aprendem a expressar emoções, lidar com o estresse e interagir com outras pessoas.

Ao mesmo tempo, é nessa etapa que começam a se estabelecer hábitos alimentares regulares - e esses hábitos podem se manter na infância e também na vida adulta.

“Os anos de pré-escola são críticos para o desenvolvimento infantil, e é também quando as crianças começam a estabelecer hábitos alimentares”, afirmou Kozeta Miliku, pesquisadora principal do estudo.

Miliku destacou que essa fase do desenvolvimento representa uma oportunidade relevante para apoiar um crescimento saudável.

Uma criança que consome alimentos nutritivos com frequência nesse período pode consolidar hábitos que favoreçam tanto o bem-estar mental quanto o físico.

O que são alimentos ultraprocessados?

Alimentos ultraprocessados são produtos industriais feitos, em grande parte, com ingredientes refinados e aditivos.

Com frequência, eles incluem componentes que raramente aparecem na culinária caseira. Exemplos são lanches embalados, bebidas açucaradas, macarrão instantâneo e refeições prontas para aquecer.

Muitas famílias recorrem a esses itens porque o preparo é rápido e porque eles são facilmente encontrados em supermercados.

Ainda assim, o consumo elevado de alimentos ultraprocessados já foi associado a problemas de saúde, como obesidade e condições relacionadas ao coração.

No Canadá, os alimentos ultraprocessados representam quase metade das calorias diárias consumidas por crianças em idade pré-escolar. Esse nível elevado de consumo motivou os pesquisadores a examinar como esses produtos poderiam afetar o comportamento e o desenvolvimento emocional.

Acompanhando a dieta e o bem-estar emocional

Para investigar o tema, os pesquisadores utilizaram dados do Estudo de Coorte CHILD, um grande projeto canadense que acompanha crianças desde antes do nascimento até a adolescência.

Gestantes entraram no estudo entre 2009 e 2012, e os pesquisadores continuaram monitorando as crianças em diversos centros de pesquisa pelo Canadá.

A equipe analisou informações alimentares de mais de 2.000 crianças quando elas completaram três anos de idade.

Dois anos depois, aos cinco anos, os pesquisadores avaliaram o desenvolvimento emocional e comportamental usando uma ferramenta científica amplamente utilizada chamada Lista de Verificação do Comportamento Infantil.

Essa lista mensura diferentes tipos de comportamento e de bem-estar emocional em crianças. Isso permitiu examinar como a alimentação aos três anos poderia se relacionar com o comportamento dois anos depois.

Alimentos ultraprocessados associados ao comportamento

Os resultados apontaram uma associação clara entre ingestão de alimentos ultraprocessados e dificuldades comportamentais. Quando as crianças obtinham mais calorias a partir de ultraprocessados, as pontuações de comportamento aumentavam.

A cada aumento de dez por cento nas calorias provenientes de alimentos ultraprocessados, os pesquisadores observaram pontuações mais altas para comportamentos internalizantes, como ansiedade e medo.

As pontuações de comportamentos externalizantes - como agressividade e hiperatividade - também foram mais altas, assim como as pontuações gerais de dificuldade comportamental.

Alguns itens apresentaram ligações mais fortes com esses padrões. Bebidas adoçadas com açúcar e bebidas adoçadas artificialmente mostraram associações particularmente marcantes.

Alimentos prontos para consumo ou para aquecer, incluindo batatas fritas e macarrão com queijo, também se conectaram a pontuações mais elevadas de comportamento.

Alimentos in natura podem favorecer o comportamento

Os pesquisadores também avaliaram o que poderia ocorrer se parte dos ultraprocessados fosse substituída por opções mais saudáveis.

Modelos estatísticos indicaram que trocar dez por cento das calorias oriundas de alimentos ultraprocessados por alimentos minimamente processados pode reduzir as pontuações de dificuldade comportamental.

Alimentos minimamente processados incluem frutas, verduras e outros alimentos integrais, com menos aditivos e ingredientes refinados.

Miliku, que também atua no Centro Joannah & Brian Lawson de Nutrição Infantil da Universidade de Toronto, considera que até ajustes pequenos na alimentação podem contribuir para um desenvolvimento mais saudável.

“Nossos achados sugerem que mesmo mudanças modestas em direção a alimentos minimamente processados, como frutas e verduras inteiras, na primeira infância podem apoiar um desenvolvimento comportamental e emocional mais saudável”, disse ela.

Por que os alimentos de conveniência são tão frequentes

Parte do interesse de Miliku pelo assunto veio de experiências do cotidiano em casa enquanto criava uma criança pequena.

“Como mãe de uma criança pequena, comecei a notar com que frequência os alimentos de conveniência aparecem na alimentação infantil, às vezes até em lugares que consideramos ambientes saudáveis”, afirmou.

Rotinas cheias, pouco tempo para cozinhar e acesso fácil a produtos embalados fazem com que alimentos de conveniência sejam uma escolha comum para muitas famílias.

“Os pais estão fazendo o melhor que podem e nem todas as famílias têm acesso a alimentos de um único ingrediente, ou às ferramentas e ao tempo necessários para incorporá-los à alimentação da família”, disse Miliku.

“Os alimentos ultraprocessados são amplamente disponíveis, acessíveis e convenientes. É importante pensar em como podemos aumentar gradualmente as opções integrais e minimamente processadas quando for possível.”

Ajudando famílias a fazer escolhas melhores

Este estudo se soma a evidências crescentes de que a alimentação pode influenciar mais do que a saúde física. Alimentos ultraprocessados já apresentam fortes ligações com obesidade e doenças cardiometabólicas tanto em crianças quanto em adultos.

Agora, os achados sugerem que a dieta também pode ter impacto no desenvolvimento emocional e comportamental durante o início da infância.

Para Miliku, mudanças simples do dia a dia podem sustentar um desenvolvimento mais saudável ao longo do tempo. Substituir bebidas açucaradas por água ou incluir frutas nas refeições diárias pode ajudar a direcionar o padrão alimentar para opções mais saudáveis.

Miliku afirmou que mesmo alterações pequenas, como acrescentar uma fruta ou trocar uma bebida açucarada por água, podem apoiar o desenvolvimento emocional e comportamental das crianças ao longo do tempo.

“O objetivo é fornecer evidências que possam ajudar as famílias a fazer escolhas informadas”, disse ela.

Escolhas alimentares saudáveis na primeira infância podem não resolver todos os desafios comportamentais, mas refeições nutritivas podem fortalecer o bem-estar emocional à medida que as crianças continuam a crescer.

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