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Poluição nos rios do México está misturando duas espécies de peixes-espada

Dois peixes coloridos nadam em água poluída com garrafa plástica e lata enferrujada no fundo.

Escondidas em rios do México, duas espécies pequenas de peixe que convivem há gerações estão começando a se confundir uma com a outra.

Uma pesquisa recente indica que a poluição está embaralhando a capacidade desses animais de se distinguirem. A escolha de parceiros - o acasalamento seletivo - é justamente o que vinha mantendo suas identidades separadas.

Nos trechos em que a água está mais suja, as duas espécies praticamente se misturaram, formando uma única população híbrida.

O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade de Stanford e analisou rios da região da Huasteca, ao norte da Cidade do México.

A equipe acompanhou como a poluição a jusante de uma cidade pequena alterou a biologia e o comportamento de dois peixes muito aparentados.

Quando as espécies começam a se misturar

As espécies avaliadas são o peixe-espada-das-terras-altas, Xiphophorus malinche, e o peixe-espada-cabeça-de-ovelha, Xiphophorus birchmanni.

Ambos são minúsculos, com cerca de 5 centímetros de comprimento, e em geral dão para diferenciar rapidamente. Só o peixe-espada-das-terras-altas tem a cauda pontuda que inspira seu nome; já o peixe-espada-cabeça-de-ovelha exibe uma barbatana dorsal alta, parecida com uma vela.

“Esta pesquisa destaca que mudanças muito recentes no ambiente parecem estar causando alterações genéticas e evolutivas realmente dramáticas nesses grupos de peixes”, afirmou a autora sênior Molly Schumer, professora associada de biologia em Stanford.

“Isso provavelmente está acontecendo de forma bem ampla em muitos tipos de espécies e ecossistemas.”

Parte do que torna o resultado inquietante é justamente essa leitura mais abrangente. O trabalho não apresenta o caso como uma peculiaridade isolada de um único sistema fluvial; em vez disso, pode ser um sinal do que a poluição vem fazendo com as fronteiras entre espécies em outros lugares - muitas vezes sem que ninguém perceba.

Rastreando a poluição ao longo dos rios

Para entender o que estava ocorrendo, os pesquisadores coletaram água e amostras de peixes em pelo menos 10 pontos distribuídos por quatro rios da região. O cenário inclui desde áreas de mata preservada até fazendas de gado e áreas agrícolas.

Um desses quatro rios atravessava uma cidade com cerca de 3,000 habitantes. Foi ali que os contrastes apareceram de maneira mais evidente.

A água coletada a jusante da cidade estava visivelmente mais turva do que a água a montante. Também apresentava concentrações mais elevadas de nitrato, fosfato e metais pesados, incluindo cobre, chumbo e cádmio.

Nos outros três rios - que não tinham esse tipo de presença urbana - não surgiu o mesmo padrão de contaminação.

Essa comparação ofereceu aos cientistas um tipo de experimento natural: as mesmas espécies de peixe na mesma região geral, mas com uma população vivendo em água consideravelmente mais suja.

Peixes-espada com o olfato comprometido

Nos peixes que viviam a jusante, os efeitos físicos chamaram atenção. Fêmeas de peixe-espada nessa área estavam sem cílios olfativos - pequenas estruturas semelhantes a pelos dentro do nariz, responsáveis por captar cheiros.

Ao mesmo tempo, o tecido nasal delas tinha mais células produtoras de muco. Na prática, isso as deixava congestionadas, como acontece com uma pessoa enfrentando um resfriado forte.

Esse detalhe é crucial porque se acredita que o olfato seja a principal forma de esses peixes identificarem um parceiro adequado.

A análise genética de embriões da população a jusante confirmou o que o dano físico sugeria. Muitos filhotes eram geneticamente “meio a meio” entre as duas espécies, indicando que as fêmeas, ali, já não escolhiam de modo confiável parceiros da própria espécie.

Ligando poluição e híbridos

Ben Moran, primeiro autor do estudo e ex-doutorando no laboratório de Schumer, foi cauteloso ao descrever como a equipe interpretou essa relação.

“Não temos uma prova definitiva, mas temos evidências circunstanciais muito boas de que a hibridização está causando uma perda de biodiversidade nesses peixes”, disse Moran. “E isso provavelmente está ligado à forma como os humanos estão impactando o ambiente.”

O argumento se sustenta pela consistência dos dados, e não por um teste único e conclusivo. Nos rios mais limpos, as espécies de peixe-espada permaneceram distintas; no rio poluído, apareceram peixes com sistemas olfativos danificados e hibridização intensa. A perda do olfato oferece um mecanismo biológico claro conectando os dois fenômenos.

Pesquisas anteriores do laboratório de Schumer já haviam mostrado que a hibridização entre essas duas espécies traz custos reais. Em parte dos descendentes, ela pode desencadear melanoma ou um distúrbio metabólico letal.

Duas espécies de peixe-espada se tornam uma

Este estudo específico descreve apenas as condições atuais em alguns rios, mas as implicações vão muito além deles.

“Uma preocupação é a redução da saúde populacional”, afirmou Schumer. “Mas, do ponto de vista da conservação, a hibridização pode resultar em um tipo de colapso de espécies, em que havia duas espécies, mas então, com o tempo, existe apenas uma e a diversidade é perdida.”

Trata-se de um tipo diferente de perda de biodiversidade do que a maioria das pessoas imagina.

Não é necessário que uma espécie desapareça por completo para que a diversidade suma. Duas espécies podem, discretamente, se borrar até virar uma só, sem uma mortandade dramática. A mesma erosão pode ocorrer porque a poluição atrapalha a capacidade de elas se reconhecerem pelo cheiro.


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