A Antártica concentra cerca de 90% do gelo existente na Terra. Muita gente imagina o continente como um bloco congelado, quase imóvel. Só que, perto do litoral, a grande camada de gelo não para: ela se desloca, se reorganiza e reage continuamente ao oceano ao redor.
Um novo estudo de longo prazo traz algumas das evidências mais nítidas até agora sobre como esse gelo vem se comportando. O retrato, porém, não é totalmente uniforme.
Ao longo de décadas, grande parte da costa antártica permaneceu estável. Ainda assim, há regiões em recuo - e esse tipo de mudança tem potencial para influenciar o futuro do nível do mar no planeta.
Um olhar mais atento para a borda do gelo
Onde geleiras gigantes encontram o mar, ocorre uma transição crucial: o gelo que antes estava apoiado no embasamento rochoso passa a flutuar. A fronteira entre o gelo “apoiado” e o gelo flutuante recebe o nome de linha de aterramento.
Essa linha é importante porque, quando ela avança para o interior do continente, indica que porções das geleiras deixaram de estar ancoradas no leito rochoso e passam a escoar mais rapidamente em direção ao oceano. Nessa condição, a camada de gelo fica mais suscetível a instabilidades e a colapsos.
Pesquisadores acompanharam como esses limites mudaram nas últimas três décadas. Para isso, recorreram a imagens de radar obtidas por satélites entre 1992 e 2025 e montaram o registro mais detalhado até o momento do deslocamento das linhas de aterramento.
Os resultados indicam que mais de 77% do litoral da Antártica se manteve estável nesse intervalo. Grandes plataformas de gelo - como Ross, Filchner-Ronne e Amery - apresentaram pouca variação na posição das suas linhas de aterramento.
Pontos críticos ao redor do continente
A estabilidade na maior parte da costa pode soar tranquilizadora. O problema é que o restante das áreas analisadas aponta para um cenário mais preocupante.
Em várias regiões vulneráveis, os cientistas identificaram sinais claros de recuo. Isso inclui setores da Antártica Ocidental, trechos da Antártica Oriental e a Península Antártica.
As transformações mais expressivas surgiram ao longo da costa do mar de Amundsen, na Antártica Ocidental. Em alguns pontos, a linha de aterramento avançou para o interior em até 42 quilômetros (26 milhas) durante o período do estudo.
Geleiras próximas a East Getz, Smith, Thwaites e Pine Island estiveram entre as que exibiram os deslocamentos mais intensos.
Ao somar as mudanças observadas no continente, a perda cresce rapidamente. Entre 1996 e 2025, a Antártica perdeu aproximadamente 12.800 quilômetros quadrados (4.942 milhas quadradas) de gelo apoiado no solo. Essa área corresponde a quase metade do tamanho da Bélgica.
Por que a água quente faz diferença
Um dos principais elementos por trás do recuo de geleiras está escondido sob a superfície do mar.
Correntes de água relativamente quente, conhecidas como Água Profunda Circumpolar, conseguem circular por baixo das plataformas de gelo flutuantes. Quando essa água alcança as geleiras, ela provoca derretimento pela base.
Em alguns locais, o quadro é ainda mais desfavorável. Sob determinadas geleiras, o terreno inclina-se para baixo em direção ao centro do continente. Assim, depois que o recuo começa, ele pode prosseguir ao longo dessa descida.
Os pesquisadores também constataram que a linha de aterramento não funciona como uma borda única e fixa. Na prática, ela se comporta mais como uma faixa móvel. As marés elevam e baixam o gelo flutuante, e a água que corre sob as geleiras altera a forma como o gelo se relaciona com o solo.
Por causa dessa dinâmica, o trabalho concentrou-se em mapear zonas de aterramento inteiras, em vez de tratar o limite como uma linha fina.
As camadas de gelo da Antártica vistas do espaço
Acompanhar alterações sutis em um continente inteiro seria quase inviável apenas com medições em solo. Foi aí que os satélites se tornaram decisivos.
A equipe utilizou instrumentos de radar de diversos satélites de observação da Terra, incluindo os satélites Sentinel-1. Esse tipo de radar é especialmente útil no ambiente antártico, porque atravessa nuvens e permite observar a região mesmo durante a escuridão polar.
O grupo empregou uma técnica chamada interferometria diferencial. O método consiste em comparar sinais de radar do mesmo local em dois ou mais momentos diferentes. Assim, é possível captar mudanças muito pequenas na superfície do gelo, inclusive variações da ordem de frações de polegada.
Pistas nos movimentos do gelo flutuante
Espera-se que plataformas de gelo flutuantes subam e desçam com as marés. Já as porções apoiadas no fundo não se comportam do mesmo jeito, pois estão presas ao embasamento rochoso.
Ao acompanhar ao longo do tempo as pequenas variações nas áreas apoiadas, a equipe conseguiu determinar onde se encontrava a zona de aterramento.
O estudo reuniu dados de um grande conjunto de missões. Além do Sentinel-1, os cientistas analisaram observações dos satélites europeus ERS, do RADARSAT (Canadá), do ALOS PALSAR (Japão), do Cosmo-SkyMed (Itália), do TerraSAR-X (Alemanha), dos satélites SAOCOM (Argentina) e da constelação ICEYE.
O que dizem os cientistas
“Este trabalho não teria sido possível sem o apoio incondicional de agências internacionais para disponibilizar observações das regiões polares”, afirmou Eric Rignot, da Universidade da Califórnia, Irvine.
“À medida que as capacidades de observação por satélite continuam a se expandir, estamos ansiosos para aprender mais sobre a dinâmica desses sistemas, para que possamos projetar melhor como eles influenciam a elevação do nível do mar no futuro”, acrescentou.
O estudo também chamou a atenção da Agência Espacial Europeia (ESA). Nuno Miranda, gestor da missão Sentinel-1 na ESA, ressaltou a relevância do registro de várias décadas construído a partir da integração de muitas missões de satélite.
“Ao combinar múltiplas missões de satélite em um conjunto de dados consistente de longo prazo, os pesquisadores estabeleceram uma referência para futuros esforços de modelagem”, disse ele.
Futuro das camadas de gelo da Antártica
A camada de gelo da Antártica armazena água congelada suficiente para elevar o nível do mar global em muitos metros caso derretesse por completo.
Esse processo levaria séculos, mas pequenas mudanças observadas agora ajudam os cientistas a entender para onde o sistema pode estar caminhando.
O novo registro do movimento das zonas de aterramento fornece uma base mais clara para pesquisas futuras. Ele indica onde a camada de gelo permanece firme e onde começa a perder terreno.
De longe, a Antártica pode parecer imóvel e silenciosa. No entanto, sob essa aparência tranquila, as bordas do continente se ajustam sem parar ao oceano que as envolve.
O monitoramento contínuo por satélite está oferecendo aos cientistas a melhor oportunidade até aqui para acompanhar essas mudanças conforme elas acontecem.
Informações da Agência Espacial Europeia.
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