Uma pedra esculpida no leste da Venezuela passou a ser considerada uma das gravuras rupestres mais antigas já reconhecidas no país, com especialistas situando sua produção entre 4.000 e 8.000 anos.
Essa estimativa empurra o registro de expressão humana em Monagas, na Venezuela, para um período muito mais remoto e reposiciona a área como um polo antigo de vida simbólica.
Gravuras acima da Quebrada Seca
Em uma encosta de terras altas próxima à Quebrada Seca, no estado de Monagas, o bloco gravado permanece a céu aberto, exposto ao vento e à chuva, com espirais e figuras humanas talhadas diretamente na face da rocha.
Ao seguir os traços sobre a superfície, Luis Rafael Peñalver Bermúdez registrou os desenhos e associou os padrões a ideias indígenas de longa duração sobre a natureza e a presença dos ancestrais.
Na condição de historiador do estado de Monagas, Peñalver afirmou que a idade estimada é especialmente antiga para os padrões venezuelanos, ao mesmo tempo em que destacou que estudos formais de datação ainda não foram realizados.
Até que esses testes sustentem a cronologia com evidências físicas, a gravação funciona como um marco expressivo - porém ainda provisório - da profundidade do passado humano na região.
Estimando a idade da pedra
Diferentemente de cerâmicas ou ossos, uma gravação em rocha quase nunca conserva material orgânico que possa ser datado diretamente em laboratório.
Por isso, especialistas recorrem a comparações de estilos de motivos, graus de desgaste na superfície e sedimentos próximos para delimitar, em termos aproximados, quando a pedra teria sido trabalhada.
Revestimentos minerais ou camadas de solo soterradas também podem fixar pontos de referência na linha do tempo, pois se formaram antes ou depois de os sulcos serem abertos.
Sem esse tipo de evidência, a estimativa mais antiga pode se manter - ou pode cair rapidamente.
O significado por trás das espirais
Espirais e círculos concêntricos sugerem que quem gravou a rocha valorizava ciclos, deslocamentos e retornos repetidos ao longo de gerações e de mudanças sazonais.
Em muitas tradições indígenas, a cosmologia - isto é, as ideias de um povo sobre o universo e os espíritos - orienta quais símbolos são reiterados.
Leituras locais relacionaram essas formas ao sol, aos ciclos da água e a espíritos ancestrais que influenciavam a vida cotidiana.
Como a interpretação se torna frágil quando pessoas de fora analisam as imagens isoladamente, trabalhos futuros precisam incluir detentores de saberes locais.
Legados Chaima e Kariña
Em todo o município de Cedeño, cuja sede é Caicara de Maturín, há tantas gravações rupestres que a área se destaca dentro do estado de Monagas.
No contexto das heranças Chaima e Kariña, muitos moradores apontam os petróglifos - gravuras em superfícies de pedra - como indícios de uma presença duradoura.
“Essas gravuras demonstram que Cedeño foi um corredor crucial de trânsito e assentamento na região”, disse Peñalver.
Atribuir autoria pode ultrapassar limites, já que comunidades indígenas atuais podem não querer que pessoas externas definam a quem pertence esse legado.
Abrindo sulcos na rocha
Os sulcos pouco profundos indicam que o autor marcou linhas - e não cavidades profundas - sobre a superfície dura da pedra.
Conhecida como técnica de baixo-relevo linear, ela consiste em abrir ranhuras rasas para que as formas permaneçam planas; nesse caso, a profundidade média da gravação foi de cerca de 1,24 centímetros (0,49 polegadas).
Traços mais largos, com aproximadamente 1,7 centímetros (0,67 polegadas) de largura, sugerem uma abrasão constante, com uso de pedra, areia e água, repetida em muitas passagens cuidadosas.
Mesmo quando se empregam cinzéis e martelos de pedra, cortes rasos se desgastam ao longo de séculos, o que torna a preservação tão importante quanto a descoberta.
Pigmentos nos sulcos
Em alguns pontos, os sulcos ainda guardam pigmentos - minerais coloridos esfregados nas linhas -, sinalizando que a gravação pode ter sido apenas uma etapa do processo.
Com a adição de cor, os artistas tornavam as figuras mais visíveis à distância e, possivelmente, as renovavam com o passar do tempo.
Chuva, calor e crescimento de plantas podem suavizar cortes rasos, enquanto intervenções humanas podem criar novos riscos que confundem o registro.
A documentação precoce fixa detalhes antes que desapareçam, permitindo que equipes futuras comparem mudanças sem tocar na pedra.
Verificação científica adiante
Estimativas baseadas em estilo podem apontar um caminho plausível, mas podem se desviar quando diferentes grupos produzem formas semelhantes.
Uma crítica de 2002 argumentou que as datas precisam se ligar à marca por evidências físicas testáveis, que qualquer pessoa consiga verificar mais tarde.
Crostras minerais que se formaram sobre um sulco podem estabelecer uma idade mínima, enquanto camadas enterradas abaixo podem definir uma idade máxima.
No caso de Quebrada Seca, isso exige amostragem cuidadosa e trabalho de contexto antes que alguém trate a reivindicação mais antiga como definitiva.
Protegendo um sítio frágil
Arte rupestre ao ar livre pode resistir por milênios, mas também pode ser danificada em uma única visita descuidada.
Um livreto da UNESCO alertou que a arte rupestre em faces rochosas expostas sofre ataques tanto da natureza quanto de pessoas, incluindo vandalismo.
Em Monagas, sítios anteriores já apresentaram desgaste e riscos feitos por humanos, o que faz com que qualquer novo local pareça particularmente vulnerável.
A proteção começa com limites de acesso e supervisão local clara - não apenas com placas instaladas depois que a notícia se espalha.
Turismo e salvaguardas locais
Em 30 de janeiro, autoridades confirmaram que o bloco fica a cerca de 3,5 quilômetros (2,2 milhas) de San Félix e a aproximadamente 647 metros (2.123 pés) acima do nível do mar.
Para reduzir danos, foi iniciado o processo de geolocalização, registrando coordenadas exatas para permitir monitoramento, e houve contato com o Instituto do Patrimônio Cultural (IPC).
Planos de criar uma rota arqueológica buscavam estimular um turismo sustentável, mas a mesma divulgação também pode atrair vandalismo.
“O petróglifo de Quebrada Seca acabará contando sua história”, comentou Peñalver, ressaltando a urgência de um trabalho de campo sistemático para proteger esse legado cultural insubstituível.
Um caminho cauteloso adiante
Ciência feita com rigor pode testar as alegações sobre a idade, enquanto a comunidade define como essas gravuras se conectam às tradições vivas.
Medidas de proteção robustas, regras claras para visitantes e planos de pesquisa transparentes podem manter a pedra de Quebrada Seca preservada por décadas.
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