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Calor extremo já impede tarefas diárias e redefine os limites do corpo humano

Jovem ajudando idoso com bengala a se apoiar em ponto de ônibus sob sol forte em rua da cidade.

O calor extremo já está impedindo pessoas de realizar tarefas simples do dia a dia, como caminhar, limpar a casa ou trabalhar ao ar livre.

Um novo estudo indica que o aquecimento climático mudou o quanto de atividade o corpo humano consegue executar com segurança em condições de calor.

Os cientistas observaram que, desde a década de 1950, aumentou de forma acentuada o número de horas por ano em que o calor passa a ser perigoso para atividades comuns.

Pesquisadores de instituições como a The Nature Conservancy, a Arizona State University e outros centros analisaram como temperatura e humidade interferem no funcionamento do corpo.

Os resultados apontam que o calor extremo está se tornando um obstáculo crescente para a vida cotidiana, com impacto particularmente forte sobre pessoas idosas.

Entendendo o calor e os limites do corpo humano

“Most heat studies focus on how hot it feels. This one asks a different question: What can a human body safely do in that heat?”, afirmou a coautora Jennifer Vanos, professora associada da Arizona State University, na School of Sustainability.

Em vez de se limitar à medição de temperatura, o trabalho avaliou como a combinação de calor e humidade altera a capacidade do organismo de se resfriar.

O corpo, em geral, reduz a temperatura por meio do suor. Porém, quando a humidade é alta, essa evaporação fica mais lenta, dificultando que o calor saia pela pele.

Para estimar quanta atividade uma pessoa pode realizar com segurança em diferentes condições meteorológicas, os autores aplicaram um modelo específico chamado HEAT Lim.

Esse modelo examina como o organismo equilibra o calor vindo do ambiente com o calor gerado durante o esforço físico.

Quando o corpo não consegue dissipar calor com rapidez suficiente, a temperatura interna sobe e pode evoluir para exaustão pelo calor ou insolação.

O calor cria condições “inabitáveis”

Os cientistas usam o conceito de “habitabilidade” como a possibilidade de executar atividades quotidianas com segurança - como caminhar, fazer limpeza ou tarefas leves - sem que o corpo superaqueça. Quando o calor se intensifica demais, essas ações deixam de ser seguras.

A equipa concluiu que, em alguns locais, o clima já pode gerar condições “inabitáveis” nas horas mais quentes do ano. Nessas situações, até permanecer sentado e quieto à sombra pode fazer a temperatura corporal aumentar.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores examinaram dados globais de temperatura e humidade de 1950 a 2024. As informações climáticas detalhadas foram reunidas hora a hora a partir do conjunto de dados ERA5 Land, desenvolvido pelo European Centre for Medium Range Weather Forecasts.

Com isso, foi possível acompanhar como a exposição ao calor mudou ao longo dos últimos 75 anos.

A exposição ao calor está aumentando no mundo todo

Os resultados mostram que episódios de calor perigoso estão se tornando mais frequentes. Jovens adultos de 18 a 40 anos agora encaram cerca do dobro de horas anuais em que o calor torna inseguras as atividades normais, em comparação com meados do século XX.

Entre as décadas de 1950 e 1970, esse grupo vivia aproximadamente 25 horas por ano nessas condições. Hoje, o valor subiu para cerca de 50 horas anuais.

Entre pessoas mais velhas, o salto é ainda maior. Antes, indivíduos com mais de 65 anos enfrentavam por volta de 600 horas por ano em que o calor restringia atividades comuns. Atualmente, esse total aumentou para cerca de 900 horas por ano.

O risco é maior para idosos porque o envelhecimento torna mais difícil resfriar o corpo por meio do suor e de uma circulação sanguínea saudável.

Por que pessoas idosas correm mais perigo

Corpos mais velhos não se resfriam com a mesma eficiência dos mais jovens. Por isso, em média, o calor limita as atividades diárias de idosos durante mais de 10% do ano.

Em partes de regiões tropicais e subtropicais, o calor impede que idosos realizem atividades ao ar livre com segurança por um quarto a um terço do ano. Os cientistas identificaram que limitações severas por calor, para esse público, podem chegar a 1.500 a 2.000 horas por ano em muitas áreas tropicais.

O quadro tende a piorar à medida que a população mundial envelhece. Em diversos países, a proporção de pessoas idosas aumentou, o que significa mais gente exposta a riscos de saúde durante ondas de calor.

“Unless we stop burning oil, coal, and gas then the constraints on livability caused by extreme heat will only become more common and widespread, particularly as the global population ages”, disse o autor principal Luke Parsons, da The Nature Conservancy.

Onde o calor extremo cresce mais rapidamente

Algumas regiões registaram os maiores aumentos de calor perigoso: o sudoeste e o leste da América do Norte, o sul da América do Sul, a área do Saara oriental em África, grande parte da Europa, o sudoeste e o leste da Ásia e o sul da Austrália.

O Sul e o Sudoeste da Ásia apresentam alguns dos cenários mais severos. Países como Catar, Barém e Emirados Árabes Unidos acumulam centenas de horas por ano em que o calor restringe fortemente a atividade.

Em várias áreas tropicais, as horas mais quentes já permitem apenas atividade muito leve, como ficar sentado ou deitado.

Os pesquisadores estimaram que cerca de 35% da população mundial vive hoje em zonas onde o calor pode limitar com força a atividade durante as horas mais quentes do ano.

Para pessoas idosas, o efeito é ainda mais amplo: aproximadamente três quartos da população global vive em regiões nas quais o calor pode restringir a atividade nessas horas críticas.

Comunidades vulneráveis enfrentam risco maior

O calor extremo não atinge todos da mesma forma. Em comunidades mais pobres, normalmente existem menos alternativas para escapar de temperaturas perigosas.

Ter acesso a ar-condicionado, centros de arrefecimento e infraestrutura robusta ajuda a reduzir riscos relacionados ao calor. Em muitos países em desenvolvimento, essas proteções são limitadas.

Trabalhadores ao ar livre - como agricultores e operários da construção - estão entre os mais expostos, pois a atividade exige esforço físico sob o sol.

O estudo também identificou que alguns dos países mais populosos, como Índia, Paquistão, Bangladesh e China, acumulam números extremamente elevados de horas totais de exposição ao calor.

Só na Índia, os cientistas estimaram mais de um trilhão de horas-pessoa por ano em que o calor extremo limita a atividade segura para idosos.

Agir contra a mudança do clima é essencial

Os cientistas alertam que essas transformações já aconteceram com pouco mais de um grau Celsius (cerca de 1,8 grau Fahrenheit) de aquecimento global provocado pela ação humana.

Se as temperaturas continuarem a subir, muito mais regiões poderão enfrentar períodos mais longos em que tarefas quotidianas se tornam inseguras. O crescimento populacional e o envelhecimento das sociedades devem ampliar ainda mais o problema nas próximas décadas.

Os autores esperam que o estudo incentive esforços mais firmes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e desacelerar a mudança do clima.

Os resultados também ajudam governos a reconhecer as áreas com maior risco de calor, para que possam melhorar sistemas de resfriamento, planeamento urbano e proteção de comunidades vulneráveis.

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