Por décadas, Uberaba foi associada sobretudo a dois marcos que levaram o nome da cidade para além do Triângulo Mineiro: a pecuária zebuína e a história do médium Francisco Cândido Xavier, mais conhecido como Chico Xavier. Os dois símbolos seguem vivos no dia a dia local e ajudam a entender por que o município atrai pessoas de várias regiões do Brasil. Ainda assim, o que há para ver e viver por ali não se limita a esses dois temas.
De alguns anos para cá, Uberaba passou a concentrar experiências que reforçam sua vocação turística e mostram uma cidade menos óbvia para quem a conhece apenas de passagem. Ao lado do legado de Chico Xavier e da força agropecuária, ganharam espaço roteiros ligados ao patrimônio histórico, à gastronomia, ao enoturismo, à paleontologia e à preservação da memória.
Trata-se de uma mudança discreta: em vez de negar o passado, o destino foi somando novas camadas a uma cidade que, muitas vezes, é enxergada por uma única lente.
Este é o primeiro capítulo de uma série especial da Catraca Livre sobre Uberaba. Nas próximas reportagens, serão apresentados alguns dos projetos que vêm redesenhando o mapa turístico do município - entre eles o Geoparque Uberaba Terra de Gigantes, reconhecido pela Unesco, os Museus Orgânicos e a Arpuro, vinícola boutique que levou a viticultura de inverno para a paisagem do cerrado mineiro.
Antes de seguir por essas trilhas recentes, porém, vale compreender como Uberaba consolidou a identidade que ainda hoje mobiliza o interesse de milhares de visitantes.
Entre rotas comerciais e a força do gado zebu
Criada em 1820, Uberaba se desenvolveu a partir dos caminhos percorridos por tropeiros e negociantes que cruzavam o interior do país. Por estar bem posicionada entre áreas que hoje correspondem ao interior paulista, Goiás e Mato Grosso, a região favoreceu o trânsito de gente e de mercadorias - e esse movimento contribuiu para que o antigo povoado se tornasse um dos polos urbanos mais importantes do Triângulo Mineiro.
Quando foi elevada a município, em 1856, a cidade já acumulava sinais desse ciclo histórico, ainda visíveis em igrejas, casarões e edifícios antigos. Essas construções guardam vestígios de uma etapa anterior à atividade que, mais adiante, iria redefinir a economia e o modo como Uberaba seria reconhecida.
A virada começou no fim do século 19, com a chegada das primeiras raças zebuínas importadas da Índia. Bem adaptados ao clima brasileiro, esses animais passaram a ter importância decisiva para a pecuária nacional. Uberaba se firmou como referência em melhoramento genético, pesquisa e comercialização, até se consolidar como a Capital Mundial do Zebu.
Essa história pode ser acompanhada no Museu do Zebu, administrado pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Ali estão reunidos documentos, fotografias, objetos de época, troféus e registros que ajudam a mostrar como o município se transformou no principal centro da pecuária zebuína do Brasil. O acervo permite entender a evolução da criação das raças zebuínas, a relevância da ExpoZebu e o impacto que o setor teve na economia, na cultura e na formação de Uberaba ao longo de mais de um século.
Desde 1935, a ExpoZebu acontece todos os anos e se tornou a expressão mais visível desse legado. Reconhecida como a maior feira do mundo dedicada às raças zebuínas, ela reúne criadores, pesquisadores, empresas e visitantes de diversos países para julgamentos de animais, leilões, exposições e discussões sobre genética e produção pecuária.
Com o tempo, o zebu deixou de ser apenas um elemento do campo e passou a compor a própria identidade de Uberaba. Ele aparece em monumentos, em espaços culturais e na memória coletiva da cidade, que encontrou na pecuária uma de suas bases de desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, roteiros ligados à cultura, ao patrimônio histórico, à paleontologia, ao vinho e ao turismo de experiência ampliaram a forma de enxergar Uberaba, apontando para um destino que vai além do peso do agronegócio.
O legado de Chico Xavier
Se a pecuária colocou Uberaba em evidência no universo agropecuário, Chico Xavier ajudou a projetar a cidade como um dos principais polos do turismo religioso no Brasil.
O médium se mudou para o município em 1959 e viveu ali até 2002, ano de sua morte. Nesse intervalo, tornou-se um dos nomes mais populares do espiritismo brasileiro e estruturou um trabalho assistencial que atraiu milhares de pessoas vindas de diferentes partes do país.
Mesmo passadas mais de duas décadas, a visitação continua em ritmo constante. Há quem chegue em caravanas organizadas e quem faça o trajeto por conta própria, movido pela vontade de conhecer os lugares ligados à vida de Chico Xavier.
Entre os endereços mais procurados estão a Casa de Memórias e Lembranças Chico Xavier - com objetos pessoais, fotografias, manuscritos, móveis e documentos que reconstituem trechos de sua trajetória - e o Memorial Chico Xavier, que reúne exposições interativas e galerias temáticas.
Outro espaço com visita frequente é o Grupo Espírita da Prece, onde Chico Xavier conduziu reuniões públicas por décadas. O local mantém presente o vínculo entre o médium e a cidade que ele escolheu para viver.
A importância desse legado vai além da esfera religiosa. Chico Xavier se incorporou à memória cultural de Uberaba e contribuiu para uma movimentação turística distribuída ao longo do ano, diferente do fluxo que se concentra apenas em grandes eventos.
Esse convívio entre turismo religioso e tradição agropecuária também abriu caminho para a criação de novos roteiros no município.
A identidade de Uberaba também está à mesa
A comida é uma das portas de entrada para descobrir Uberaba por ângulos mais recentes. A culinária local mistura referências da tradição mineira, da cultura tropeira e do que vem da produção rural da região.
Nesse contexto, o Mercado Municipal - aberto em 1924 - segue como um dos melhores lugares para perceber essa identidade. Em seus corredores, moradores e visitantes encontram queijos artesanais, doces mineiros, cachaças, produtos do Cerrado e artesanato regional.
O espaço vai além da função de abastecimento: ele traduz a relação entre cidade e campo. Ali se cruzam histórias de produtores, comerciantes e consumidores, revelando hábitos alimentares preservados ao longo de décadas.
Nos restaurantes, esse repertório tradicional passou a conviver com propostas mais contemporâneas. Endereços como Santa Brasa e D’Moreira conquistaram destaque em festivais gastronômicos do estado, enquanto lugares como Cheirin Bão, Contento Cucina, Geremia Bar e Choperia e Caçarola do Dino, em Peirópolis, apresentam diferentes leituras da cozinha regional.
E a gastronomia passou a se conectar também com novas vivências ligadas às bebidas.
Novos sabores em uma terra de tradição agrícola
A aproximadamente 40 quilômetros do centro de Uberaba, a Vinícola Arpuro marca uma transformação recente no cenário rural do município. A propriedade produz vinhos finos com base na técnica da dupla poda, que possibilita colher no inverno - época em que há menos chuvas.
A Arpuro mantém 14 variedades de Vitis vinifera e elabora espumantes, vinhos brancos, rosés e tintos. A visita inclui caminhar pelos vinhedos e acompanhar etapas do processo de criação dos rótulos.
Outro sinal dessa diversificação é o Beer Tour na fábrica do Grupo Petrópolis, que recebe visitantes para observar as fases de produção da cerveja - da chegada do malte ao envase - e termina com degustação de chope.
Embora sejam iniciativas recentes, elas apontam para uma alteração na forma como a cidade se relaciona com o turismo: um território tradicionalmente identificado pela agropecuária começa a explorar outros caminhos para transformar sua paisagem em atrativo.
Uma história que começou antes do homem
A narrativa mais antiga de Uberaba, no entanto, não está nos registros oficiais nem nas construções históricas: ela está enterrada.
Em Peirópolis, distrito do município, fósseis encontrados ao longo de décadas evidenciaram a presença de animais que viveram na área há milhões de anos. A partir dessas descobertas, Uberaba se consolidou como referência nacional em pesquisa paleontológica e viu nascer o Geoparque Uberaba Terra de Gigantes.
Ao ser reconhecida como Geoparque Mundial da Unesco, a cidade entrou para uma rede internacional de territórios que combinam ciência, conservação, educação e turismo.
Paralelamente, Uberaba passou a investir em uma maneira diferente de proteger sua história. Inaugurados em junho deste ano, os Museus Orgânicos propõem outra relação entre público e patrimônio: em vez de reunir peças em um prédio único, conduzem o visitante aos locais onde as histórias efetivamente aconteceram.
São perspectivas distintas para ler a cidade. A paleontologia leva a um passado de milhões de anos. Os museus guardam lembranças mais próximas. A gastronomia, o vinho e os novos roteiros revelam um município em processo de mudança.
Uberaba segue sendo a cidade do zebu e de Chico Xavier. Mas quem chega disposto a enxergar além desses dois emblemas encontra um percurso em que ciência, patrimônio, gastronomia e experiências recentes começam a compor um capítulo diferente da história local.
Mais conectividade para chegar ao Triângulo Mineiro
Chegar a Uberaba também ficou mais simples com o aumento das opções de voo. Em janeiro, a Latam Brasil iniciou a rota direta entre o Aeroporto de Guarulhos e Uberaba, criando uma nova ligação entre o Triângulo Mineiro e o principal hub de conexões da companhia no Brasil.
O voo inaugural saiu com ocupação total, sinalizando a procura da região por uma conexão direta com Guarulhos - aeroporto que concentra voos para dezenas de destinos nacionais e internacionais e facilita o deslocamento de turistas e viajantes de negócios para o município mineiro.
No segundo semestre, a operação acontece com três frequências semanais, às quartas-feiras, sextas-feiras e domingos. Os voos utilizam aeronaves Airbus A319 e A320, com capacidade para até 180 passageiros.
O jornalista viajou a convite da Latam Airlines Brasil, da Associação Geoparque Uberaba e da Prefeitura Municipal de Uberaba
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