Em um lago da Escócia, uma ilhota que parecia absolutamente comum acabou entregando um segredo preservado por milênios. O crannog de Loch Bhorgastail, na ilha de Lewis, nas Hébridas Exteriores, escondia sob o revestimento de pedras uma ampla plataforma circular de madeira erguida há mais de 5.000 anos. O achado pegou os arqueólogos de surpresa porque indica que certas ilhas artificiais escocesas são bem mais antigas do que se supunha - e que já estavam em uso no período Neolítico.
O que é um crannog?
Crannog é o nome dado a uma ilha artificial construída em lagos - os lochs, como são chamados na Escócia. Essas estruturas podiam ser montadas com madeira, pedras, terra, argila e outros materiais transportados até trechos de água rasa. Por muito tempo, boa parte dos crannogs foi atribuída principalmente à Idade do Ferro e a épocas posteriores.
No entanto, o exemplo de Loch Bhorgastail obrigou a rever essa visão. A análise revelou uma etapa bem mais antiga: uma plataforma de madeira que teria sido instalada antes da camada de pedras que hoje dá à ilha o aspecto rochoso. Em outras palavras, o local parece ter passado por diferentes fases de ocupação e reconstrução ao longo do tempo.
Como a plataforma de madeira ficou escondida?
À primeira vista, a ilha aparentava ser apenas um amontoado de pedras. Só que, sob essa cobertura, os pesquisadores identificaram uma estrutura circular de madeira com aproximadamente 23 metros de diâmetro. De acordo com a reportagem da Science et Vie, a plataforma tem mais de 5.000 anos e é anterior a Stonehenge.
A hipótese mais plausível é que a base de madeira tenha sido feita primeiro, no Neolítico, e que as pedras tenham sido adicionadas depois, em momentos posteriores de uso. Com o passar dos séculos, o revestimento externo acabou ocultando a origem da construção, fazendo com que ela parecesse somente uma ilha artificial pedregosa.
Por que essa descoberta é tão importante?
O peso dessa descoberta está em empurrar a cronologia dos crannogs para um período muito mais remoto. Se antes muitos desses sítios eram encarados como obras da Idade do Ferro, agora fica evidente que algumas comunidades neolíticas já dominavam técnicas sofisticadas para construir plataformas sobre a água.
Isso também altera a maneira como os arqueólogos interpretam essas populações. Erguer uma ilha artificial demandava planejamento, deslocamento de materiais, coordenação coletiva e conhecimento do ambiente. Não se tratava de algo improvisado: era uma construção concebida para permanecer e para cumprir um papel com significado na vida comunitária.
O que os fragmentos de cerâmica revelaram?
No entorno do crannog, os arqueólogos localizaram centenas de fragmentos de cerâmica neolítica. Em alguns recipientes, ainda havia resíduos de alimentos preservados, o que aponta para o uso do local em encontros, preparo de comida e outras atividades em grupo.
- os fragmentos apareciam nas águas próximas à ilha;
- a cerâmica sugere uma presença humana intensa na área;
- os resíduos alimentares indicam preparo e/ou consumo coletivo;
- o crannog pode ter servido como espaço social ou ritual;
- o fato de estar cercado por água tornava o lugar marcante na paisagem.
Esse conjunto de evidências é especialmente útil porque permite reconstituir não só a arquitetura, mas também o uso cotidiano ou simbólico do espaço. A ilha não se resumia a madeira e pedra: funcionava como um ponto de encontro dentro de uma comunidade antiga.
Como os arqueólogos conseguiram estudar a ilha?
Investigar o sítio não foi simples porque o crannog fica em uma área intermediária: parte em terra, parte em água rasa. Métodos terrestres tradicionais não se aplicam bem ali, e técnicas de arqueologia subaquática também podem ser limitadas quando a lâmina d’água é pequena. Por isso, a equipe recorreu a modelos 3D gerados a partir de fotografias - um procedimento conhecido como estereofotogrametria em água rasa.
O aspecto mais impressionante é que uma ilha aparentemente banal expôs uma engenharia muito antiga. Debaixo das pedras, havia uma plataforma de madeira construída por pessoas que viveram há mais de 5.000 anos. O achado reforça que os lagos escoceses ainda preservam capítulos inteiros da pré-história e que, muitas vezes, o passado mais profundo está escondido justamente sob aquilo que parecia comum demais para merecer atenção.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário