Ninguém percebe, mas milhões de turistas pisam ali todos os anos.
O Parque Nacional de Yellowstone fica na divisa de três estados - Wyoming, Montana e Idaho - e ocupa quase 9 000 km², algo comparável à área da Córsega. Esse enorme território de altitude, situado a mais de 2 000 metros, reúne grandes planaltos, vales moldados por geleiras, florestas de coníferas e rios cheios de curvas. É o parque natural mais antigo do mundo e, sem exagero, um dos lugares mais impressionantes do planeta - embora o seu subsolo seja uma fornalha incandescente, entre as mais ativas do mundo.
Por que Yellowstone é tão espetacular na superfície
Por ter origem vulcânica, Yellowstone deve a esse passado (e presente) suas paisagens mais famosas: gêiseres gigantescos, fontes termais e poças de lama em ebulição. Esse dinamismo geotérmico é um indício claro de que, sob o parque, permanece um reservatório colossal de magma parcialmente derretido. Na prática, o parque está assentado sobre um supervulcão que, se voltasse a despertar, poderia transformar a planeta inteira.
Uma máquina geológica colossale
Por seu perfil geológico, Yellowstone não se apresenta como uma montanha vulcânica “clássica”, como o Monte Saint Helens (Washington) ou o Vesúvio (Itália). O que existe ali é uma caldeira: uma depressão gigantesca criada quando a crosta terrestre colapsa sobre si mesma após uma erupção descomunal. A última ocorreu há cerca de 631 000 anos; na ocasião, milhares de km³ de cinzas, rochas e gases foram lançados para a atmosfera. Esse tipo de evento recebe o nome de supererupção, porque mais de 1 000 km³ de material foram violentamente expulsos das entranhas do parque.
O sistema vulcânico de Yellowstone também não é alimentado como o de um vulcão comum. Ele depende do que se chama de hotspot: uma área fixa de ascensão de calor em profundidade, vinda do manto terrestre. Esse hotspot aquece dois reservatórios de magma empilhados um sobre o outro.
O primeiro, localizado entre 20 e 50 km abaixo da superfície, guarda magma basáltico (fluido e muito quente). O segundo, entre 4 e 14 km, contém magma riolítico (mais viscoso e mais explosivo). É esse reservatório superior que sustenta os gêiseres (mencionados acima) e as fontes termais e que, potencialmente, pode alimentar erupções futuras. O esquema citado no texto original ilustra bem essa arquitetura subterrânea, bastante particular de Yellowstone.
O que aconteceria se Yellowstone explodisse hoje?
Uma supererupção não acontece como uma bomba que detona de repente: trata-se de um mecanismo geológico muito lento que começa a se encaixar. Ao longo de séculos - às vezes milênios - o calor sobe a partir das profundezas do manto, vai derretendo a rocha aos poucos e provoca o inchamento do solo. A olho nu, praticamente nada chamaria atenção; mas, sob a crosta, a pressão se acumula até que o terreno comece a se arquear, rachar e, por fim, ceder.
Quando isso ocorre, os gases presos no magma (vapor d’água, dióxido de carbono, dióxido de enxofre) seriam liberados de uma vez, como ao abrir uma panela de pressão no limite. A descompressão seria tão brutal que esfarelaria a crosta terrestre, e o parque inteiro explodiria sob essa força. Em poucas horas, uma coluna de cinzas e rochas vulcânicas seria arremessada a dezenas de quilómetros de altitude. O penacho resultante seria muito maior do que o observado após a última grande erupção do Etna, na segunda-feira, 2 de junho.
O impacto da explosão seria letal. Nos estados vizinhos ao parque, haveria dezenas de milhares de mortos, encurralados por uma onda de choque incandescente, atingidos por desabamentos e por um céu negro que, literalmente, cairia sobre as cidades próximas.
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As cinzas voltariam ao solo em camadas espessas num raio de mais de 1 000 km. Seria suficiente para bloquear estradas, derrubar telhados, paralisar redes elétricas e contaminar reservas de água. Já a aviação comercial ficaria totalmente impedida de operar em escala continental. E, ainda assim, o pior viria depois.
O “inverno vulcânico” e o impacto global
Ao atingir as camadas altas da atmosfera, os gases vulcânicos se combinariam com o vapor d’água e formariam aerossóis sulfúricos: partículas minúsculas em suspensão que refletem a luz do Sol. A temperatura cairia gradualmente, até bagunçar por completo o equilíbrio térmico do planeta. É o que se chama de um inverno vulcânico: um arrefecimento prolongado que começaria por afetar as zonas temperadas e, mais adiante, colocaria em risco a regularidade das estações.
Ainda assim, dá para respirar aliviado: uma erupção desse porte é extremamente improvável na escala de uma vida humana. Segundo os dados do Yellowstone Volcano Observatory, o magma sob a caldeira está, em sua maior parte, em estado sólido. A fração realmente derretida - a que poderia escoar - representa entre 5 e 15 % do reservatório superior e apenas 2 a 5 % no reservatório profundo. Isso fica muito abaixo do limiar necessário para desencadear uma supererupção.
Monitoramento contínuo e por que não haveria surpresa
O vulcão está ativo, mas está longe de uma explosão. Ele é observado continuamente - aliás, é um dos vulcões mais monitorados do mundo. Uma rede de sismógrafos, sensores de GPS e satélites acompanha o sistema sem parar para identificar qualquer sinal precursor: elevação do solo, microtremores, alterações na composição dos gases liberados à superfície, entre outros.
Yellowstone jamais teria uma explosão surpresa: os sinais descritos acima surgiriam com anos de antecedência. Por isso, os vulcanólogos não o consideram uma ameaça iminente; o cenário de uma supererupção, com base nas constantes físicas atuais, é estritamente impossível no curto prazo. No longo prazo, é outra conversa - mas é provável que a espécie humana desapareça antes de Yellowstone voltar a despertar. Enquanto ele continuar “roncando” por mais alguns milhares de anos, temos problemas bem mais urgentes para resolver. O apocalipse vulcânico pode esperar!
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