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Turismo excessivo em Portugal e o refúgio do Craveiral Farmhouse no Alentejo

Família caminhando por estrada rural com casa brancas ao fundo em dia ensolarado.

Quando pensamos em férias, é comum a imaginação correr para praias distantes ou cidades internacionais descoladas. E, embora o orçamento e a pegada de CO2 pesem na escolha, cada vez mais gente também coloca o turismo excessivo na balança - e com razão. Uma coisa é ficar cansado de desviar de outros visitantes e levar uma cutucada de um pau de selfie; outra, bem diferente, é a responsabilidade social que carregamos ao decidir para onde vamos.

Turismo excessivo em Portugal: números recordes e um custo local

Portugal recebe turistas demais? A resposta muda conforme o ângulo. Em 2025, o país projetou uma receita recorde de cerca de €62.7 bilhões, impulsionada pelo aumento de hóspedes e de pernoites. Só em julho, Portugal recebeu 3.4 milhões de hóspedes, com 9.4 milhões de pernoites em diferentes tipos de alojamento. O turismo é um motor económico enorme, com impacto relevante no PIB (mais de 20%) e no emprego (alguns números apontam 1.2 milhões de postos), além de manter forte o consumo tanto doméstico como internacional.

Para a economia nacional, é excelente. Para quem vive no destino, nem sempre. Quando o fluxo de visitantes ultrapassa o que o lugar consegue absorver, a infraestrutura, a habitação e o espaço público ficam sob pressão. As consequências tendem a incluir superlotação, rendas a subir, recursos sobrecarregados e queda na qualidade de vida dos moradores.

Em Lisboa, bairros inteiros como Alfama passaram a ser evitados por quem é da cidade. Comércios fecham para dar lugar a hotéis, moradores são empurrados para fora do centro, e o coração histórico começa a parecer um parque temático de tuk-tuks, lojas de lembranças e restaurantes voltados quase apenas a turistas. O que fazia Lisboa ser Lisboa vai, aos poucos, desaparecendo - um padrão conhecido e preocupante em muitas cidades europeias.

A rota menos óbvia: Alentejo, São Teotónio e o Craveiral Farmhouse

Então, como manter o turismo sustentável? Uma saída é levar visitantes para outras regiões do país. Um exemplo desse esforço para gerar impacto positivo por meio das viagens - e, ao mesmo tempo, concretizar um sonho antigo de virar jardineiro - aparece no interior pouco povoado do Alentejo, mais precisamente em São Teotónio.

Ali, Pedro Franca Pinto abriu o Craveiral Farmhouse em 2018. Durante um almoço, na companhia da sua parceira e dos seus cães, ele resumiu assim a proposta do lugar: “A visão do Craveiral é regenerar a região por meio da economia circular e ligar agricultura, gastronomia, hospitalidade e experiências na natureza aos hóspedes e à comunidade. O nosso valor de sustentabilidade não é apenas ambiental, mas também financeiro e social”.

Ele também contou, com um sorriso contido, que a ideia tem raízes pessoais: “Eu sempre quis ser jardineiro, mas os meus pais queriam que eu virasse advogado, então eu virei. Acho que este lugar representa a minha rebeldia tardia”, diz em voz baixa, enquanto lança um olhar para a mãe, que tricota à sombra - uma mulher encantadora, que mais tarde me mostra fotos dos netos e a sua página no Facebook, onde “Prince William” lhe enviou um pedido de amizade.

Pinto defende a vida lenta, e não a gratificação instantânea (e não é essa, afinal, a essência da jardinagem?). Essa postura de longo prazo, guiada por valores claros, rendeu ao Craveiral prémios de sustentabilidade em 2024 e 2025.

Perto da cozinha externa aberta, com o fogo a rugir nos fornos, ostras frescas e momos dividem espaço na grande mesa de madeira com legumes da horta e outras delícias. À primeira vista, os momos podem parecer deslocados num conceito alentejano “da horta à mesa”, mas há motivo: “Eu apoio uma visão de imigração focada na integração, que reconhece e honra a nossa diversa comunidade local, incluindo alguns dos nossos funcionários, que têm origens noutros países. Por isso o nosso menu inclui receitas do Nepal”, explica Pinto. Ele acrescenta que, em geral, procuram construir relações duradouras com a equipa - motivo pelo qual muitos começam como estagiários e avançam até cargos de gestão.

Luxo simples de quinta: conforto, autenticidade e natureza

Entre o sofisticado e o descomplicado, o Craveiral consegue juntar os dois, temperando tudo com hospitalidade portuguesa e um sentido real de autenticidade. É o tipo de conforto que atrai quem não quer uma temporada “mão na terra” a tempo integral, mas ainda assim procura um lugar em que dá para se instalar de verdade. Com piscina interior e exterior, um banho ao ar livre, estúdio de ioga e outras comodidades, o ambiente passa longe de ser formal, impessoal ou sem graça.

Isso fica evidente quando me levam a uma das 38 casas distribuídas por 9 hectares. Mobiliário de qualidade, uma área de trabalho e cozinha integrada (pense em cama Hästens, banheira independente de cortiça, barras de sabão orgânico e arte nas paredes) encontram uma vista para um grande cercado, onde um rebanho de cabras descansa entre pinheiros, observando de lado os cavalos e os burros do espaço ao lado. Esse conjunto de casas tem uma piscina privativa.

Mais adiante pelas estradas de cascalho (que eu, mais tarde, exploro com prazer numa das bicicletas disponíveis para hóspedes), aparece um projeto maior: a criação de 300 galinhas de quatro raças portuguesas ameaçadas, que abastecem a quinta com muitos ovos. Na chegada, sou recebido com uma tigela do que está a crescer naquele momento na horta sem químicos, além de pão feito no forno a lenha.

Os hóspedes podem colher o que quiserem durante a estadia - todas as casas têm cozinhas - e até levar um pouco para casa ao irem embora. A intenção é simples: que cada um se sinta em casa.

Passadiços longos atravessam a propriedade, que, fora as áreas de cultivo, é deixada a crescer de forma mais selvagem. Abelhas zumbem entre os arbustos de alecrim; à noite, o céu se enche de estrelas e o som dos grilos toma conta. O silêncio tem gosto de luxo, mas não há risco de tédio: o Craveiral oferece muitas atividades para adultos e crianças, como aulas de surfe a partir do seu quiosque de praia na Praia Carvalhal, a 15 minutos, além de stand-up paddle, pesca e motocross. Para os pequenos, há pintura, culinária, noites de cinema e muito mais.

Eu faço o passeio a cavalo mais bonito que já vivi, pela Trilha dos Pescadores na costa Vicentina, e depois sigo para uma degustação deliciosa na Vinícola Vicentino ali perto (não deixe de provar o Sauvignon Blanc). À noite, ainda encaixo uma aula de ioga. O Craveiral mostra bem como um alojamento pode ser um destino por si só - sem deixar de oferecer muitas experiências nos arredores para explorar.

Caixa de informações

  • A quinta não recebe apenas férias e escapadas: também organiza eventos, casamentos (inclusive já fizeram um indiano), retiros de ioga e opções para trabalho remoto.
  • Dá para comer no restaurante sem se hospedar, ou pegar uma pizza para viagem.
  • Como chegar: se você não estiver de carro, pegue o trem até a estação Santa Clara - Saboia e agende um traslado de 20 min a partir dali. Animais de estimação são muito bem-vindos. craveiral.pt.

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