Algumas pessoas entram num avião com a mesma naturalidade de quem está entrando no supermercado; outras embarcam em cada voo com a certeza de que estão prestes a participar de uma reconstituição improvisada de um documentário de desastre do canal Discovery. Voar deveria ser a maior prova do génio humano: criamos máquinas gigantescas que conseguem erguer para o céu centenas de toneladas de combustível, malas, turistas e as respetivas crianças aos berros - e manter tudo lá em cima. Era para ser grandioso. Era para ser de arrepiar. Só que, para milhões de pessoas, é simplesmente apavorante. E, sinceramente, dá para entender.
Medo de voar: por que o avião parece tão ameaçador
Assim que você põe o pé numa aeronave, aparece uma coleção impressionante de lembretes de que aquilo “não tinha como” estar no ar. Você se acomoda numa poltrona com espessura de bolacha de água e sal. Ouve ruídos que parecem parafusos soltos, hidráulica desistindo e um orc afiando uma espada no porão de carga. A comissária ensina a vestir o colete salva-vidas como se isso fosse ajudar quando você estiver caindo na Baía de Biscaia a cerca de 966 km/h. E aí vem a pior parte: as portas fecham com um baque pesado. É ali que o suor começa de verdade.
Um dos grandes mistérios da vida é que a gente aceita numa boa descer uma rodovia a 129 km/h, a poucos metros de carros vindo no sentido contrário (também a 129 km/h), muitas vezes com alguém ao volante que jamais deveria ter passado na prova. Ainda assim, sentar num assento desenhado pela Airbus parece mais perigoso. No papel, voar é absurdamente seguro; nas estatísticas, é mais seguro do que ficar na própria cozinha descascando cebola. Só que o medo não lê estatística. O medo quer drama, emoção e cenas de “Premonição” rodando em loop na cabeça. E o principal gatilho é o controlo - ou, melhor, a falta total dele.
Turbulência, falta de controlo e o cérebro em alerta
Ser humano detesta se sentir preso. Talvez por isso a gente tenha inventado janelas, carros conversíveis e controle remoto: para apertar “desligar” sempre que algo incomoda. Mas num avião? Você entra, senta, afivela o cinto e percebe que, dali em diante, você não manda em mais nada. Não dá para sair porque “mudou de ideia”. Não dá para ir lá fora respirar ar fresco. Nem abrir a janela - a não ser que a sua meta seja ser sugado para a estratosfera.
E, quando a novela da decolagem termina, a uns 11.600 m de altitude, ainda dá tempo de acrescentar turbulência ao pacote. De repente, a cabine inteira vira uma sessão espírita vitoriana: mãos esmagando apoios de braço, gente sussurrando orações e negociando com o universo, jurando que “nunca mais vou beber” se o avião só parar de chacoalhar.
Enquanto isso, os pilotos provavelmente estão a tomar um chá, absolutamente tranquilos, porque para eles turbulência é tão dramático quanto uma entrada de garagem um pouco irregular. Mesmo assim - mesmo com as mãos suadas, o coração disparado e a convicção de que cada solavanco é o último - as pessoas continuam voando. E, mais importante: dá para vencer esse medo. Só não vai ser fingindo que voar é natural, porque não é.
Pássaros voam, aviões voam, mas humanos, em geral, caem. Ainda assim, dá para “hackear” o cérebro e fazer ele largar um pouco o botão do pânico.
Como vencer o medo de voar na prática
Entenda o que a turbulência realmente é (dica: não é o fim do mundo) Pilotos falam de turbulência como você e eu falamos de um buraco na rua: chato, mas irrelevante. Aviões são projetados para aguentar forças muito maiores do que qualquer turbulência consiga produzir. As asas não simplesmente se partem, e aeronaves não despencam como o Wile E. Coyote quando passa do penhasco. O medo se alimenta do desconhecido. Quando você percebe que turbulência é só o ar se comportando mal - e não o avião dando defeito - tudo parece bem menos sinistro. É como estar num ônibus um pouco trepidante, só que com uma vista muito melhor e com o destino final não sendo Bognor Regis.
Conheça os verdadeiros deuses do céu: os pilotos Se você já viu um piloto no comando, reparou numa coisa: eles são calmos. Calmos num nível de medalha de ouro olímpica. Eles conseguiriam anunciar algo como “o motor esquerdo caiu” num tom tão sereno que você quase pensaria: “Que maravilha, vai que rola um desconto.” Em algumas rotas, as companhias permitem que passageiros visitem a cabine antes do voo. Vale a pena. Porque, quando você enxerga o nível de tecnologia lá dentro - telas, sensores, botões, chaves, redundâncias, reserva da reserva da reserva - começa a ficar claro que a sua torradeira em casa tem mais chance de dar problema do que um jato comercial moderno.
Não tente só resistir ao medo - atropele o medo A pior estratégia é ficar sentado tentando relaxar. Ninguém relaxa tentando relaxar. É como tentar dormir repetindo “dorme, dorme” como um monge. O caminho é a distração: assista a algo engraçado, ouça música alta, leia alguma coisa completamente absurda. Em resumo, qualquer coisa que impeça você de analisar cada rangido e estalo como se fosse um engenheiro forense.
A tática do álcool: use com moderação Tem quem defenda “um gole mais forte” para tirar a ansiedade da frente. Tudo bem. Só não exagere, porque não existe nada mais humilhante do que estar com medo de voar e bêbado ao mesmo tempo. O seu cérebro só vai fundir os dois pânicos e fabricar um terceiro: o medo de falar um monte de bobagem para uma comissária que - convenhamos - já não tem muita paciência para você.
Entedie o seu cérebro até ele obedecer Quanto mais você voa, menos épico o evento parece. Quem viaja com frequência não é corajoso; só está entediado. Para essas pessoas, voar tem o mesmo impacto emocional de sentar no sofá. Com o tempo, o cérebro aprende que todo voo termina com você em terra firme, indo embora e pensando: “Na verdade, nem foi tão ruim”, enquanto torce para que as catracas da imigração não estejam tomadas por 5.000 aposentados fazendo zigue-zague e reclamando sem parar da própria desgraça. Pelo amor de Deus, parem!
Você definitivamente não está no comando Este é o ponto central. Você não controla o voo. Você não controla a gravidade. Não controla o vento, a pressão do ar, as nuvens, nem o facto de o sujeito ao seu lado ter decidido tirar os sapatos. E é exatamente essa a questão: você não precisa controlar. Há pessoas muito mais qualificadas do que você no comando. E, quanto mais você aceita isso, mais fácil cada viagem fica.
Voar não é assustador. Na vida, quase tudo envolve algum risco: atravessar a rua, comer frutos do mar, até marcar um encontro. Mas voar, estatisticamente, é uma das coisas menos arriscadas que você pode fazer. E, no fim, você chega a algum lugar quente, ou interessante, ou exótico - ou, no mínimo, a um lugar com cerveja mais barata do que onde você começou. Então, sim: medo de voar é comum. É lógico. É compreensível. Mas também é administrável. Porque, como acontece com quase tudo que nos assusta, a antecipação quase sempre é muito pior do que a realidade.
Voar não é assustador. O que assusta é a nossa imaginação. Aviões são extraordinários. E, lá no fundo, até a pessoa mais apavorada sabe disso - afinal, a gente continua entrando neles.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário