Um crânio fóssil de dimensões pequenas revelou uma espécie de ave até então desconhecida, Gorgonavis alcyone, datada do período dos dinossauros.
O achado amplia a distribuição conhecida de uma linhagem de aves de bico comprido que, até agora, era considerada restrita a ecossistemas antigos da China.
Crânio fóssil em rocha espanhola
Num bloco de calcário de Las Hoyas, no centro de Espanha, o crânio manteve preservados o bico, a mandíbula e fragmentos da caixa craniana.
Ao analisar esses ossos, Sergio M. Nebreda, da Universidade Johns Hopkins (JHU), identificou uma combinação incomum de características que permitiu descrever a nova espécie.
O crânio indica que os dentes se concentravam muito perto da extremidade anterior do bico, enquanto a maior parte do maxilar superior permanecia estreita e sem dentes.
Como o fóssil corresponde apenas a uma cabeça separada do restante do corpo, a anatomia ainda deixa dúvidas que descobertas futuras poderão esclarecer.
Bico de ave com traços distintivos
Essa expansão de área é relevante porque esta ave pertencia aos enantiornitas, aves primitivas fora da linhagem das aves atuais - um grupo ativo durante o Cretáceo.
As afinidades apontam para os longipterigídeos, um conjunto de aves antigas conhecido por bicos longos e estreitos com dentes pequenos; os fósseis anteriores haviam documentado esse ramo de focinho alongado apenas no nordeste da China.
"A aparência do bico dessas aves mesozoicas às quais Gorgonavis pertence era excepcionalmente alongada", afirmou Nebreda.
Essa delicadeza ajuda a entender por que uma única cabeça consegue resolver dúvidas de identidade que, em geral, ossos dispersos de asas ou pernas costumam deixar em aberto.
Digitalizações dentro da pedra
Para extrair mais informações da laje, a equipa recorreu à microtomografia computadorizada - uma varredura por raios X de alta resolução no interior da rocha - para examinar superfícies ocultas.
As imagens revelaram dentes minúsculos e a articulação entre os ossos anteriores do bico, a ligação que contribui para definir a forma do bico.
Também mostraram que o focinho superior se afilava até formar uma ponta longa, conferindo ao animal uma face diferente das aves já conhecidas de Las Hoyas.
Ainda assim, a ausência da metade posterior do esqueleto mantém partes da anatomia incertas e deixa provisória a sua colocação familiar exata.
Linhagem de aves chega à Europa
Antes do aparecimento deste crânio, os investigadores conheciam esse ramo de focinho comprido apenas a partir dos fósseis de Jehol, na China, bem a leste de Espanha.
Encontrar um parente em Cuenca, no centro de Espanha, sugere que essas aves se distribuíam pela Eurásia, e não apenas dentro de um famoso “bolso” de rocha.
O achado também reforça Las Hoyas como um elo crucial entre a Ásia e a Europa naquele período, sublinhando a importância do sítio para compreender a evolução das aves primitivas.
Essa dispersão sugere que formas especializadas de aves estavam menos isoladas do que os paleontólogos supunham, um padrão que outros fósseis podem tornar mais nítido.
Ecossistema de Las Hoyas
Las Hoyas, a zona húmida onde o crânio foi encontrado, preserva um ecossistema do Cretáceo Inferior com cerca de 250 espécies.
Variações sazonais da água e tapetes microbianos ajudaram a selar plantas, insetos, peixes, mamíferos e aves com um nível incomum de detalhe.
Uma ave previamente descrita em Las Hoyas, Eoalulavis, preservou a álula, uma pequena estrutura da asa que auxilia no controlo do voo lento.
Outras descobertas no mesmo local incluíram crias, penas e tecidos moles, criando contexto para interpretar esta nova cabeça.
Linhagem de aves perdida
Essas aves faziam parte de um mundo que terminou há 66 milhões de anos, quando um impacto também as eliminou.
Ao contrário dos ancestrais das aves atuais, os enantiornitas mantiveram dentes e traços corporais mais antigos, mesmo à medida que o voo se tornava mais eficiente.
Jesus Marugan-Lobon, coordenador do projeto, defendeu que a nova espécie reforça o argumento de que Las Hoyas é um local-chave para estudar esse grupo.
Esse ramo extinto importa porque cada fóssil novo mostra quantas maneiras diferentes as aves testaram voo, alimentação e crescimento antes de apenas uma linhagem sobreviver.
Rostos evoluíram cedo
O que se destaca neste crânio é o rostro, a parte frontal do crânio, estendido para além da órbita ocular.
O bico do fóssil atingia cerca de duas vezes e meia a abertura do olho, o que coincide com pequenos parentes de focinho comprido conhecidos na China.
Essa proporção indica que as faces das aves começaram cedo a experimentar novas ferramentas de alimentação, e não apenas ao longo da linha que levou às aves modernas.
Ainda assim, os autores alertam que um único crânio não consegue mapear todas as etapas, sobretudo quando parentes próximos continuam raros.
O que os dentes sugerem
Dentes pequenos na ponta do bico provavelmente serviam mais para agarrar presas do que para mastigar, já que aves não mastigam.
Comparações com outros longipterigídeos apontam para uma dieta baseada em animais, com insetos como a hipótese mais forte no momento, em vez de peixe.
Mesmo essa interpretação permanece pouco definida, porque o comprimento do bico pode adequar-se a vários modos de vida e nenhuma ave atual oferece uma correspondência direta.
Por enquanto, o crânio informa mais sobre ferramentas possíveis de alimentação do que sobre uma refeição específica confirmada.
Por que Las Hoyas é importante
Após décadas de escavações, Las Hoyas continua a revelar fósseis que alteram mapas da evolução das aves, e não apenas listas locais de espécies.
Um registo recente da avifauna do sítio descreve o depósito de aves cretácicas mais rico da Europa e um dos mais bem preservados.
Essa profundidade ajuda a explicar por que uma cabeça isolada pode falar de migração, ecologia e anatomia ao mesmo tempo.
Cada novo exemplar desta bacia testa suposições antigas com evidências melhores, o que mantém o local em destaque.
O que o crânio significa
Visto no contexto de todo o sítio, Gorgonavis alcyone transforma uma cabeça desconectada em evidência de que aves primitivas se espalharam e se especializaram mais depressa do que se esperava.
Mais crânios e, sobretudo, corpos associados ao crânio irão definir como esta ave de bico comprido vivia e quantos parentes partilhavam o seu mundo.
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