Nas semanas que antecedem o Ramadan, basta caminhar por um grande supermercado para perceber que o cenário mudou. Áreas antes discretas com produtos com certificação halal se transformam em espaços amplos, cartazes chamam a atenção e promoções passam a ocupar os corredores. Não é coincidência: as redes planejam esse período com a mesma lógica usada em datas como Natal ou Páscoa.
Ramadan como data fixa no calendário de campanhas
Por muito tempo, grandes varejistas evitavam tratar o mês de jejum de forma explícita. Existia o receio de serem acusados de fazer “marketing para determinados grupos”. Até havia itens adequados nas prateleiras, mas quase sempre sem destaque: poucos encartes, quase nenhuma ilha promocional e baixa visibilidade.
Nos últimos anos, esse comportamento mudou de maneira clara. Pesquisas de mercado indicam o quanto o período se tornou relevante para o comércio. Em supermercados e hipermercados franceses, por exemplo, as vendas de produtos halal aumentam, em média, cerca de 30% durante o Ramadan. O salto fica ainda mais evidente em categorias como frango, embutidos, congelados e delicatessen: a participação de itens certificados, que gira em torno de 6% no ano, sobe para aproximadamente um quarto do faturamento nesse mês.
O mês de jejum já é, para muitas redes, um megaevento comercial - com peso semelhante ao de períodos festivos tradicionais.
Na França, o volume de mercado de alimentos halal já alcança vários bilhões de euros por ano, e os gastos de lares muçulmanos crescem em um ritmo bem superior à média. Para os conglomerados do varejo, a leitura é direta: quem não aparece nesse momento deixa dinheiro na mesa.
Público jovem e urbano no centro das decisões
Para as equipes de estratégia, não importa apenas o incremento de vendas, mas também o perfil de quem compra. Estudos estimam que, na França, cerca de 12 milhões de pessoas adquiram produtos halal. Um ponto chama atenção: uma parcela considerável não é muçulmana; compra porque o preço compensa ou porque percebe qualidade.
Esse público é visto como especialmente valioso: majoritariamente jovem, muitas vezes descendente de terceira ou quarta geração de imigrantes, concentrado em grandes cidades, com boa capacidade de compra e alto consumo de lanches e alimentação rápida. Redes como KFC e Popeyes testam e ampliam ofertas alinhadas a essa demanda; algumas marcas de fast-food chegam a adaptar lojas inteiras. Já os aplicativos e serviços de entrega relatam que, nas horas mais tarde da noite durante o mês, os pedidos podem crescer em até 40%.
O que atrai os varejistas nesse grupo
- grande preferência por snacks, pratos prontos e delivery
- uso acima da média de apps, programas de fidelidade e campanhas de desconto
- forte lealdade à marca quando qualidade, preço e valores se alinham
- compras volumosas para refeições em família e encontros comunitários
Os supermercados enxergam aí uma oportunidade de fidelização que vai além do Ramadan. A aposta é simples: quem se destaca no mês com variedade, boas ofertas e uma presença respeitosa tenta permanecer na memória do cliente ao longo do ano.
Como supermercados reconfiguram as lojas
A mudança aparece diretamente nas gôndolas. O que antes era um canto com poucos itens passa a virar uma seção temática própria. Internamente, algumas redes chamam esses espaços de “universos”: a ideia é reunir, em um único ponto, tudo o que costuma ser necessário para as refeições do fim do dia e da madrugada.
Entre os formatos mais comuns, aparecem:
- grandes exposições de tâmaras e frutas secas logo na entrada
- áreas promocionais com massa folhada, leguminosas, arroz, bulgur e especiarias
- latas e galões grandes de óleo, muitas vezes em combos ou multipacks
- mais espaço em refrigeradores e freezers para carne halal, embutidos, congelados prontos e delicatessen
- embalagens família e tamanhos econômicos, pensados para muitas refeições compartilhadas
Em bairros com maior presença de consumidores muçulmanos, as lojas intensificam ainda mais a estratégia: mais páginas em encartes, ações extras, extensão de horários em alguns dias e, em certos casos, sinalização bilíngue. A ambientação também se aproxima cada vez mais do modelo usado no Natal: faixas coloridas, displays especiais e até spots de áudio exclusivos dentro da loja.
O que antes ficava restrito a um canto agora ocupa o centro do palco - com muita visibilidade, volume alto e uma mensagem direta de desconto.
Do balcão do açougue ao mercado bilionário
Historicamente, o comércio de carne halal esteve concentrado em pequenos açougues e mercearias especializadas. Esses pontos seguem essenciais: em algumas lojas, o mês de jejum representa até um quarto do faturamento anual. Para muitos, é uma verdadeira alta temporada.
Ao mesmo tempo, as grandes redes avançam com força para ampliar o alcance, sobretudo em alimentos secos, congelados e delicatessen. Nesses segmentos, os supermercados e atacarejos já dominam grande parte da oferta. Marcas conhecidas abastecem as prateleiras de discounters e redes tradicionais com linhas voltadas ao período - de snacks empanados a rolinhos de massa recheados.
| Área | Importância no mês de jejum |
|---|---|
| carne halal e embutidos | crescimento forte, em alguns casos com duplicação das vendas |
| produtos congelados | peça-chave para jantares rápidos |
| secos e itens básicos | compras grandes de estoque, frequentemente em pacotes promocionais |
| doces e sobremesas | sortimentos em expansão para visitas e comemorações familiares |
Com a aproximação do fim do mês, o foco muda mais uma vez: no entorno da celebração de encerramento do jejum, surgem itens que lembram o clima do Natal - de confeitos e biscoitos a caixas para presente, além de decoração e têxteis. Para o varejo, isso amplia a janela em que é possível gerar alto volume de vendas direcionado a um mesmo público.
Como o mercado na Alemanha vem se transformando
No espaço de língua alemã, especialistas também apontam tendências semelhantes, ainda que em escala menor. Grandes redes ampliaram o sortimento de produtos com certificação, especialmente em cidades com maior presença de população migrante. Páginas especiais em encartes aparecem com mais frequência, e as áreas promocionais ganham destaque.
Quem observa com atenção os supermercados na Alemanha nota padrões recorrentes: tâmaras e doces específicos em posições privilegiadas, seções refrigeradas reforçadas com carnes adequadas, pacotes família de óleo e arroz e uma comunicação mais intensa baseada em preço e pontos de fidelidade. Em geral, as redes começam testando em algumas lojas e, depois, expandem as ações para outras regiões.
Oportunidades e pontos de atrito
Com a expansão do sortimento, surgem também debates. Parte dos consumidores celebra a maior disponibilidade e o reconhecimento visível de suas necessidades. Outros se incomodam com a ideia de “comercializar a religião” ou com a percepção de uma guerra de descontos em torno de um período espiritual.
Para reduzir tensões, o varejo procura ajustar a comunicação. Nas campanhas, aparecem expressões como “momentos em família”, “comer junto” e “tempo de comunidade”, enquanto a referência religiosa tende a ficar em segundo plano. No fim, o objetivo das redes é claro: aumentar o volume de itens no carrinho - independentemente da crença.
O que consumidores podem aproveitar desse cenário
Para as famílias que observam o mês de jejum, as campanhas agressivas podem trazer vantagens reais. Quem compara preços consegue formar estoque com menor custo, tirar proveito de embalagens econômicas e experimentar produtos que normalmente são raros. Ainda assim, vale manter senso crítico: nem toda etiqueta de desconto significa uma boa compra, e tamanhos grandes podem resultar em despensa lotada.
O tema também interessa a quem gosta de conhecer novas cozinhas. Muitos itens que ganham destaque nessas semanas - como tâmaras, misturas de especiarias, folhas de massa e certas leguminosas - funcionam muito bem no dia a dia, sem relação com o calendário do Ramadan. Para quem cozinha, as áreas temáticas costumam render ideias para ensopados, pratos de forno e lanches rápidos.
Outra dimensão envolve qualidade e origem. Certificações, rótulos e selos são centrais no segmento halal, mas variam bastante conforme o país e o fornecedor. Consumidores que priorizam transparência devem olhar além do preço e verificar a identificação específica, sobretudo quando a carne vem de diferentes regiões ou quando entram em jogo critérios adicionais, como orgânicos.
No fim das contas, o que se vê nos corredores antes do mês de jejum aponta uma realidade: para o varejo, esse período já se tornou parte fixa do calendário comercial. Quem compra participa de um encontro entre prática religiosa, tradição cultural e uma estratégia de venda meticulosamente planejada - e decide por conta própria o quanto quer se deixar conduzir por isso.
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