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Surto de hantavírus no MV Hondius deixa oito casos e três mortes a caminho de Cabo Verde

Profissional de saúde com máscara e luvas inspeciona área de passageiros com bagagens em quarentena na embarcação.

Jake Rosmarin, um blogueiro de viagens dos Estados Unidos, encarou uma sequência de voos até chegar a Ushuaia, no extremo sul da Argentina. Foi dali que, em 20 de março, partiu o navio de cruzeiro MV Hondius - hoje no centro de um surto de hantavírus. Depois de embarcar, ele seguiu por 35 dias de travessia até alcançar Cabo Verde, em 4 de maio.

Era esse o roteiro que ele pretendia mostrar ao público - hoje com mais de 53 mil seguidores: icebergs, céu azul, espécies novas de aves (albatrozes nevados, de tristão e de cabeça cinzenta), além de baleias, golfinhos e pinguins; Jonathan, a tartaruga considerada o animal mais velho do mundo (nascida nos anos 1830); a fragata-de-ascensão (uma ave rara e ameaçada que recorta o céu “como um avião”), muita vida selvagem, arco-íris, baías “deslumbrantes” emolduradas por montanhas íngremes e geleiras, astronomia em alto-mar, pôr do sol e noites cheias de estrelas.

A viagem sonhada

A travessia atlântica reunia de tudo um pouco: a passagem por Tristão da Cunha, a ilha mais remota do planeta e o ponto habitado mais isolado da Terra, a mais de 2400 quilômetros da ilha habitada mais próxima e a mais de 2800 quilômetros de uma cidade continental - e acessível apenas por mar; tortas de lagosta; Gough (ilha de Gonçalo Álvares), patrimônio mundial da UNESCO e uma das áreas mais importantes do mundo para aves marinhas, onde desembarques são proibidos para proteger o ecossistema; formações rochosas feitas de lava com milhões de anos; a história do exílio de Napoleão em Santa Helena, ilha vulcânica no Atlântico Sul - um isolamento verde e azul que vai além das imagens de cartão-postal -, peixe frito; a ilha de Ascensão; fotos de Júpiter; e, cruzando o Equador, um retrato quase documental da vida selvagem.

Só não estava no plano enfrentar uma infecção rara, transmitida de roedores para humanos - em geral por urina, fezes ou saliva. O surto virou do avesso a experiência das 147 pessoas, de 23 nacionalidades, a bordo. A sequência começou em 6 de abril, quando um holandês de 70 anos passou a se sentir mal, com febre, dor de cabeça, dor abdominal e diarreia. Ele piorou gradualmente até evoluir para insuficiência respiratória aguda e morreu em 11 de abril. Ainda assim, os demais seguiram viagem com o corpo no navio por quase duas semanas.

O início de uma crise

O desembarque do corpo só ocorreu em 24 de abril, quando o navio atracou em Santa Helena, uma ilha remota no Oceano Atlântico, a quase 2000 quilômetros da costa de Angola. Foi lá que a esposa, de 69 anos, iniciou o processo de repatriação para os Países Baixos - e também passou a ter queixas gastrointestinais. Enquanto isso, no navio, um cidadão britânico procurou atendimento ao apresentar febre, dificuldade para respirar e sintomas de pneumonia. A holandesa seguiu de avião para a África do Sul com o corpo do marido, mas piorou durante o voo e desmaiou no Aeroporto Internacional de Joanesburgo. Ela morreu no dia seguinte.

A situação do britânico se agravou em 26 de abril. No dia seguinte, ele precisou ser transferido da ilha de Ascensão para a África do Sul, onde permanece internado. Um dia depois, uma passageira alemã relatou mal-estar, também com sintomas de pneumonia. O quadro avançou rapidamente, e ela morreu em 2 de maio. Já em 3 de maio, com o navio se aproximando de Cabo Verde, três passageiros apresentavam febre alta e/ou sintomas gastrointestinais. Entre os infectados, em estado grave, estava o médico da embarcação.

Tripulação à deriva aguarda instruções e garantias

O hantavírus atingiu oito pessoas: três morreram e uma já se recuperou. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que os primeiros casos foram contraídos em terra, na América do Sul, antes do embarque, mas não descarta a hipótese de transmissão dentro do navio.

Há quatro dias, Aitana Forcen-Vazquez, oceanógrafa dedicada à exploração polar e integrante da tripulação como guia turística, publicou um vídeo que sugere a mudança de clima a bordo. “Ensinar competências pós-apocalípticas às pessoas enquanto atravessam o Oceano Atlântico”, diz a legenda, sobre imagens de passageiros tricotando.

Jake Rosmarin também falou com os seguidores: “Estou a sentir-me bem, a aproveitar o ar fresco, e continuo a ser bem alimentado e bem cuidado pela tripulação a bordo. Estou a tentar concentrar-me no lado positivo, pensar nas coisas boas e manter um sorriso no rosto.” Em vídeo, ele mostrou a vista próxima (e ao mesmo tempo distante) da Praia, em Cabo Verde, a partir do navio que fez escalas em algumas das ilhas mais remotas do mundo e visitou ecossistemas distintos - mas precisou abandonar o destino final previsto.

Três mortes, oito casos e a proibição de Cabo Verde

“‘Isto é Cabo Verde, mas não nos é permitido entrar”, disse Kasem Hato, outro passageiro que cria conteúdos de viagem nas redes sociais. A Espanha havia concordado em permitir que a embarcação navegasse até as Ilhas Canárias, onde os passageiros seriam atendidos e repatriados, depois que autoridades cabo-verdianas negaram autorização no início da semana e mantiveram o navio ancorado nas proximidades. A OMS informou nesta quarta-feira que três pacientes com suspeita de hantavírus foram retirados do MV Hondius e seguem para os Países Baixos para receber tratamento.

No mesmo dia, o presidente do Executivo das Canárias (que governa em coalizão com o Partido Popular, principal opositor do PSOE, do primeiro-ministro Pedro Sánchez), Fernando Clavijo, criticou a decisão do governo espanhol de autorizar a atracação do navio holandês MV Hondius nas ilhas. A ministra da Saúde da Espanha, Mónica García, anunciou depois que os 14 espanhóis que ainda estão a bordo serão examinados nas Canárias e, em seguida, transferidos para Madri. Segundo a governante, citada pelo jornal “El País”, os demais passageiros estão assintomáticos. A OMS confirmou um oitavo caso: um cidadão suíço que desembarcou com a esposa antes de o surto ser conhecido e que está em tratamento em Zurique.

Medo e silêncio

A cada nova etapa, a falta de respostas pegou os viajantes desprevenidos. Kasem Hato descreveu aos seguidores como a viagem se tornou turbulenta: “Depois de termos chegado à nossa primeira ilha na viagem, o estado de saúde de um dos tripulantes do navio deteriorou-se. E, infelizmente, fomos surpreendidos com a notícia da sua morte cerca de 12 dias após o início da viagem.” O corpo foi retirado quando seguiam rumo a outra ilha. “Mas, infelizmente, dois dias depois, recebemos a notícia da morte da sua esposa, que estava com ele na viagem. Partimos da ilha e, dois dias depois, os sintomas da doença começaram a surgir noutra pessoa a bordo.” Segundo ele, houve parada no caminho para a ilha de Ascensão, com a realização de testes nessa pessoa. “Continuámos a nossa viagem até ao nosso último destino, que é Cabo Verde. Antes de chegarmos, vários dias depois, o estado de saúde de outro dos passageiros do navio deteriorou-se, o que provocou também uma nova morte.”

Hato lembra ainda que Cabo Verde se negou a permitir assistência médica aos doentes e barrou a entrada dos viajantes em suas águas territoriais. “Hoje deveria ser o último dia da nossa viagem de 35 dias pelo Atlântico”, afirmou na segunda-feira. “Mas parece que a nossa viagem não vai terminar aqui, porque Cabo Verde se recusou a permitir-nos atracar. Tudo o que Cabo Verde fez foi enviar médicos que recolheram amostras dos doentes a bordo.”

O youtuber diz que “a maioria das pessoas no navio está a lidar com o assunto em completo silêncio, ao contrário do que está a ser noticiado”. Ele também usa as publicações para tranquilizar quem teme contágio: “A probabilidade de infeção por este vírus é muito baixa”, afirma. “Se o mundo fosse enfrentar uma pandemia [deste vírus], já teria acontecido há muito tempo.”

Ainda assim, a situação não é vivida do mesmo jeito por todos. Jake Rosmarin publicou um vídeo com tom emocional ao comentar os últimos acontecimentos: “Estou atualmente a bordo do MV Hondius, e o que está a acontecer agora é muito real para todos nós aqui. Não somos apenas uma história. Não somos apenas manchetes. Somos pessoas. Pessoas com famílias, com vidas, com pessoas à nossa espera em casa. Há muita incerteza, e essa é a parte mais difícil.” O influencer norte-americano afirma que, neste momento, só quer que tudo termine para que todos possam se sentir em segurança. “Se está a ver notícias sobre isto, lembre-se de que há pessoas reais por trás disto, e que isto não está a acontecer nalgum lugar distante. Está a acontecer connosco agora.”

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