Depois de um longo período de estagnação, a China se prepara para assinar contratos aeronáuticos de grande porte para renovar uma frota que já mostra sinais de envelhecimento. Ainda assim, esse retorno das encomendas firmes continua condicionado a um cenário geopolítico global cada vez mais imprevisível.
Megacontratos da China com Airbus e Boeing
O setor aéreo chinês está prestes a ganhar fôlego novamente. Após uma fase prolongada de retração marcada pela pandemia e por atritos comerciais, Pequim dá sinais de que voltará a investir pesado na compra de aeronaves.
Frota envelhecida e demanda por 1 000 aeronaves
A necessidade é considerada gigantesca: especialistas avaliam que o país precisa importar pelo menos 1 000 aeronaves para sustentar o crescimento e substituir aviões antigos. Nos bastidores, começam a tomar forma dois megaacordos: cerca de 500 aviões para a europeia Airbus e um volume semelhante para a americana Boeing. Por ora, ainda não está claro se esses compromissos serão efetivamente concluídos.
A concretização dessas assinaturas, no entanto, depende de um equilíbrio internacional frágil. Com a guerra no Oriente Médio seguindo sem sinais de arrefecimento, cresce a dúvida sobre o cronograma de entregas. Esse risco pesa especialmente sobre a Boeing, que negocia a entrega de 500 737 MAX, somada a cerca de uma centena de jatos de grande porte, incluindo os modelos 787 Dreamliner e o novo 777X. Para a fabricante, a disputa é crucial, já que sua participação de mercado na China encolheu nos últimos anos.
Aposta política
A visita de Estado de Donald Trump a Pequim, prevista entre 31 de março e 2 de abril, tende a ser decisiva. Isso porque a carteira de pedidos da Boeing já foi usada como instrumento de pressão nas negociações entre as duas maiores potências do mundo, especialmente no contexto de tarifas e direitos de importação.
Do lado chinês, a assinatura não deve ocorrer sem contrapartidas relevantes. O governo vincula a compra dessas aeronaves americanas ao destino do seu próprio campeão nacional: o Comac C919. Esse jato de projeto chinês, concorrente direto do 737, ainda depende de componentes ocidentais essenciais - em particular motores e eletrônica fornecidos por General Electric, Honeywell ou RTX. E a posição do país é explícita: a aquisição dos aviões da Boeing só será aprovada se Washington garantir o fornecimento tecnológico ao seu rival.
O espectro da guerra no Irã
Apesar desses interesses cruzados, a reunião de cúpula pode ser adiada em cima da hora, caso a escalada do conflito no Irã embaralhe o cenário. Washington agora considera a possibilidade de assumir o controle da Ilha de Kharg, principal terminal de petróleo do país.
Para Pequim, uma iniciativa desse tipo seria vista como linha vermelha. A China, maior importadora de petróleo iraniano, encararia de forma muito negativa uma intervenção americana que ameaçasse sua segurança energética. Se a dinâmica militar prevalecer, o retorno da Boeing ao mercado chinês pode, mais uma vez, ficar parado no pátio.
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