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Medicalização da solidão: estudo mostra que médicos foram dos últimos a reconhecer

Médico conversando com idoso sentado em mesa de exame em consultório iluminado pela luz natural.

A solidão passou a ser tratada como questão médica nos últimos 15 anos, e um novo estudo aponta que os médicos estiveram entre os últimos a reivindicar esse enquadramento.

A chamada medicalização da solidão consiste em transformar uma condição social em algo que o sistema de saúde deveria diagnosticar e administrar. Segundo o estudo, essa mudança foi impulsionada principalmente por pesquisadores do meio académico, autoridades governamentais e seguradoras - e não por médicos.

Essa diferença importa porque define quem acaba carregando a responsabilidade de enfrentar uma das ameaças à saúde mais debatidas no país.

Quando a solidão é colocada como condição médica, o trabalho recai sobre consultórios e clínicas, que podem fazer triagem e encaminhar pessoas para serviços, mas não conseguem reconstruir bairros, reduzir jornadas de trabalho nem substituir um amigo que morreu.

A solidão chegou ao consultório

A virada começou com uma sequência de números preocupantes.

Nas últimas duas décadas, pesquisas associaram vínculos sociais frágeis a maior risco de morte precoce, e uma meta-análise muito citada concluiu que esse perigo rivalizava com o do tabagismo.

Isolamento social, solidão e morar sozinho apareceram, cada um, como fatores que elevam a probabilidade de morrer mais cedo em cerca de um terço, e o impacto surgiu em diferentes quadros, incluindo doença cardíaca, demência, AVC e depressão.

Em 2023, o cirurgião-geral dos EUA comparou a desconexão social ao equivalente de fumar cerca de 15 cigarros por dia.

Isolamento entre pessoas idosas

Sofia Hiltner, doutoranda em sociologia na Universidade de Michigan, passou anos acompanhando como essas evidências foram mudando a conversa pública.

O método dela foi direto: entrevistou profissionais que trabalham com o tema da solidão e analisou mais de uma década de cobertura jornalística, artigos de revistas médicas e trabalhos académicos.

O interesse tinha também um lado pessoal. Após a morte do avô, ela viu a avó tornar-se cada vez mais isolada, com pouca estrutura no quotidiano e poucos amigos, o que levou Hiltner a perguntar por que a solidão tão raramente é encarada como um problema social.

Ao iniciar o estudo do isolamento entre pessoas idosas, ela se deparou com ensaios clínicos de uma pílula para a solidão.

Essa descoberta tratava a solidão como algo a ser medicado, e não como algo gerado pela forma como as pessoas vivem e trabalham.

O salto da saúde para o sistema de saúde

Conectar solidão e saúde deu ao tema uma gravidade que antes não tinha. Ao mesmo tempo, argumenta Hiltner, isso produziu o que ela chama de “salto lógico”: a suposição de que, se um problema prejudica a saúde, então o sistema de saúde é o lugar certo para resolvê-lo.

A análise dela depende dessa diferença. “Nem tudo o que se relaciona com saúde pertence ao sistema de saúde. Médicos podem fazer triagem e conectar pacientes a serviços, mas não podem reconstruir comunidades ou encurtar jornadas de trabalho”, disse Hiltner.

Esse salto funciona porque a saúde física tem uma autoridade que poucas outras causas conseguem igualar. Os números acabam convencendo.

Um problema sustentado por taxas de mortalidade e valores financeiros parece urgente e digno de investimento; já a mesma dificuldade descrita apenas como solidão pode soar branda ou estritamente privada.

O dinheiro ajudou a consolidar o argumento. Um relatório associou o isolamento social entre pessoas idosas a cerca de US$ 6,7 bilhões em gastos adicionais do Medicare por ano - um valor que deu a hospitais e seguradoras um motivo financeiro para prestar atenção.

Médicos chegaram tarde à conversa

O aspecto mais inesperado dessa trajetória é quem fez a pressão. Hiltner constatou que os médicos não correram para considerar a solidão como parte do seu território.

Em vez disso, a força para trazê-la para dentro da medicina veio de pesquisadores do meio académico, autoridades de saúde do governo e companhias de seguros.

A mudança ganhou carácter oficial em 2023, quando o cirurgião-geral dos EUA publicou um alerta classificando solidão e isolamento como uma crise de saúde pública e pedindo ação ao setor da saúde.

Declarações desse tipo têm peso e ajudaram a deslocar a solidão de um sofrimento privado para uma prioridade de saúde pública.

Dificuldades do dia a dia e problemas sociais

Sociólogos descrevem, há muito tempo, a medicalização como o processo pelo qual problemas cotidianos passam a ser tratados como condições médicas.

Em geral, eles argumentaram que esse movimento é movido por médicos ambiciosos, por pacientes que buscam um rótulo ou por empresas farmacêuticas à procura de um mercado.

Exemplos anteriores - da timidez à menopausa e à inquietação infantil - costumavam seguir um desses caminhos.

A solidão foge ao padrão. Ela nunca foi confundida com uma doença oculta, e todos os envolvidos sabiam que se tratava de algo social.

Para Hiltner, essa franqueza é justamente o que torna o caso revelador: mostra como um problema claramente social ainda pode acabar definido como trabalho médico.

Definir a solidão como algo médico

Hiltner também identificou desconforto entre as próprias pessoas envolvidas nesse trabalho e até sinais iniciais de resistência ao enquadramento da solidão como preocupação médica.

Muitos se inquietaram com o que se perde quando um problema social é entregue à clínica.

“Há o risco de que definir a solidão como médica desloque outras formas de responder ao tema. Atenção, tempo e recursos são limitados”, disse Hiltner.

“Por outro lado, enquadrá-la como médica pode inspirar mais ação do que teria acontecido de outra forma.”

O que está em jogo é prático. Tempo, dinheiro e atenção são finitos. Cada dólar gasto para fazer triagem de solidão em pacientes é um dólar a menos investido nas coisas que geram conexão em primeiro lugar.

Isso inclui moradia a preços acessíveis, bairros caminháveis, espaços comunitários e horários que deixem espaço para uma vida social.

O sistema de saúde só consegue ir até certo ponto

O estudo deixa claro que a solidão não virou uma questão médica “sozinha”. Pessoas e instituições fizeram escolhas para defini-la assim - e essas escolhas podem ser analisadas e revistas.

Hiltner espera que o trabalho leve formuladores de políticas públicas a agir mais cedo, antes que o isolamento se instale, e a ponderar o que o sistema de saúde consegue e o que não consegue fazer.

“O sistema de saúde pode ajudar, mas só consegue ir até certo ponto”, disse Hiltner.

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