O Boeing 747 E-4B Nightwatch não é o Air Force One. Trata-se de uma lenda - e de um recurso que nenhum presidente dos Estados Unidos precisou acionar. Esse verdadeiro “Pentágono voador” foi pensado para o cenário extremo em que o país teria de conduzir uma guerra nuclear a partir do céu. Ontem à noite, em Los Angeles, ele foi registrado em voo pela primeira vez.
As imagens são de uma raridade enorme, do tipo que entusiastas de aviação e de história esperam ver durante anos. No aeroporto de Los Angeles, a equipa do Airline Videos filmou o Boeing 747 E-4B Nightwatch, dos EUA, apelidado de “Doomsday Plane” - ou “avião do apocalipse / avião do juízo final” em português. Em mais de cinquenta anos de operação, a aeronave nunca tinha sido vista no principal aeroporto internacional da Califórnia. De forma mais ampla, as suas aparições públicas são excecionais (nenhum presidente teve de o usar) e, quase sempre, acabam associadas a momentos de maior tensão geopolítica.
O que o Boeing 747 E-4B Nightwatch foi fazer em Los Angeles?
Afinal, por que esse “avião do fim do mundo” apareceu em Los Angeles?
Depois de chegar ao pátio, o Boeing 747 E-4B Nightwatch desembarcou o secretário de Defesa Pete Hegseth. Recentemente, ele foi fotografado ao lado de Donald Trump durante a ação de forças especiais na Venezuela, para a captura do presidente Maduro. Em Los Angeles, Pete Hegseth ia participar de uma cerimónia de juramento de novas recrutas da região.
O responsável já tinha publicado imagens suas a embarcar no Doomsday Plane em junho de 2025, quando regressava de uma viagem à Ásia. Optar por voar numa aeronave desse tipo está longe de ser um detalhe e, considerando o custo por hora (372 000 US$/hora) em comparação com um avião mais convencional (42 000 US$/hora), cada deslocação pública passa longe de ser “rotina”.
Por que ele é chamado de “avião do fim do mundo”?
Quando reportagens abordam a camada máxima de segurança do presidente dos EUA, a frota do Air Force One costuma alimentar o imaginário. O Boeing 747 modificado - capaz de permanecer dias no ar graças ao reabastecimento em voo - também é apresentado como apto a escapar de mísseis.
Só que o mais extremo é o Boeing 747 E-4B Nightwatch. O “avião do fim do mundo”, como o nome sugere, foi concebido como solução derradeira: manter o comando e o controlo operacionais mesmo num cenário de guerra nuclear. Ele reúne tecnologias avançadas para transferir, para o ar, o centro de comando da principal potência mundial. Não é um aparelho feito para iniciar uma guerra nuclear, e sim para responder a uma.
“Este avião é projetado para sobreviver a uma guerra nuclear. Protegido contra impulsos eletromagnéticos. Projetado para comandar as forças estratégicas americanas se Washington for destruída. Durante meio século, ele só operou a partir de bases militares”, comentou um utilizador no X.
A antena de 8 km e as comunicações de baixa frequência
Entre os seus sistemas, um dos mais impressionantes é o cabo longo que a aeronave consegue desenrolar até próximo do solo. Na prática, trata-se de uma antena com 8 km de comprimento, destinada a transmitir mensagens e ordens em frequências muito baixas.
Essas frequências podem ser recebidas por submarinos (até 18 metros de profundidade) e em qualquer parte do planeta - a propagação indicada é de 2,5 vezes a volta à Terra. Por exigir sigilo total, o sistema quase não foi utilizado. Desde 2004, foram realizados apenas 12 testes com essa antena gigante.
Origem do programa E-4 e sinais de chamada
O programa E-4, que deu origem a esse “avião do apocalipse”, começou nos anos 1970. O primeiro voo ocorreu em 13 de junho de 1973, e a entrada “em serviço” veio no ano seguinte. Até hoje, ele praticamente não foi filmado em voo: as aparições costumam ser discretas e, na maior parte do tempo, acabam percebidas apenas em radares.
Em junho de 2025, um dos quatro exemplares da aeronave foi acompanhado num trajeto entre duas bases militares, com objetivo de manutenção. Em geral, esses aviões ficam baseados na Offutt Air Force Base, no Nebraska. Ao contrário do Air Force One, os E-4B não usam sempre o mesmo nome de chamada. Os seus call signs frequentemente são “ORDER01 / ORDER06 / ORDER66”, mas também já foram vistos como “SPICE98”, “GORDO31” e “TITAN25” em voos específicos.
Substituição do E-4B: Boeing 747-8i e cronograma
O programa E-4 voltou ao centro das atenções no ano passado, num momento em que já se planeia a substituição da frota. A empresa Sierra Nevada (que já trabalha com o Pentágono e com a NASA) venceu uma concorrência para preparar quatro Boeing 747-8i que pertenciam à companhia Korean Air.
Por motivos de segurança e para integrar novos sistemas de ponta, essas aeronaves foram completamente desmontadas. A entrada em serviço está prevista para 2036, e um primeiro voo de teste ocorreu em 7 de agosto de 2025. No total, essa renovação deverá custar 13 mil milhões de dólares ao governo federal.
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