Uma start-up chamada GRU Space afirma que dá para garantir, desde já, uma futura estadia no nosso satélite natural mediante um adiantamento de seis dígitos. Vale dizer sem rodeios: o cheiro disso é muito mais de miragem do que de turismo.
Desde a abertura oficial do turismo espacial - impulsionada principalmente pelos projetos de Jeff Bezos por volta de 2020 - surgiram iniciativas de todos os tipos, algumas francamente extravagantes. Teve a SpaceVIP e a promessa de um jantar no espaço, a Vast (agência que trabalha com a SpaceX), os voos suborbitais da Virgin Galactic, a Zephalto com seus balões estratosféricos… Em poucos anos, o espaço virou um laboratório de ambições para bilionários atrás de sonhos de infância.
Reservas de seis dígitos e a promessa de hotel na Lua da GRU Space
Ainda assim, nenhuma start-up tinha esticado tanto a corda ao tentar ocupar o nicho de hotelaria de luxo lunar. Sim: a GRU Space diz que vai construir “o primeiro hotel na Lua”, como anuncia em seu site, e já abriu reservas para estadias futuras. Com um pagamento antecipado entre US$ 250.000 e US$ 1.000.000, a promessa é fazer você dormir na Lua em habitats infláveis… daqui a seis anos.
Do jeito que a proposta é apresentada, a impressão é a de uma captação fantasma, bancando o projeto com entradas que, na prática, dificilmente voltariam ao bolso de quem pagou. Os motivos aparecem rapidamente.
GRU Space: complexo de Ícaro, versão espacial?
“Os humanos não poderão se expandir além da Terra até resolvermos a questão do habitat na Lua. No dia em que a habitação fora da Terra for dominada, será um ‘momento prometeico’, capaz de permitir o nascimento de bilhões de seres humanos na Lua, em Marte e além”. É assim que a GRU Space enquadra a própria ambição, centrada sobretudo no fundador: Skyler Chan, um jovem de 22 anos recém-formado na UC Berkeley, graduado com um ano de antecedência. Ele teve uma passagem breve pela Tesla e chegou a desenvolver uma impressora 3D para a NASA.
Pelo que o site informa, outras duas pessoas aparecem associadas ao projeto: o Dr. Kevin Cannon, ex-professor da Colorado School of Mines, e o Dr. Lillis, diretor adjunto de ciências planetárias no Laboratório de Ciências Espaciais da UC Berkeley e pesquisador principal da missão ESCAPADE (missão da NASA rumo a Marte). Entre os três, tudo indica que apenas Chan trabalha em tempo integral nesse plano de hotel.
Uma coisa é inegável: ele sabe compor vitrine. Para sustentar o tal “momento prometeico”, o jovem CEO estampou no site os nomes de dois acadêmicos de peso. Com cargos assim, é razoável supor que Lillis e Cannon tenham agendas lotadas - e que, por enquanto, estejam muito longe de largar as pesquisas para virar chefes de obra em tempo integral de uma start-up que, oficialmente, tem apenas mais um funcionário.
Na prática, sobra um projeto que custaria centenas de milhões de dólares (ou mais) sendo carregado nas costas por uma única pessoa em tempo integral. É como se um recém-formado em arquitetura dissesse que vai reconstruir Notre-Dame de Paris em três meses, sozinho, apenas com a chancela de dois historiadores renomados.
“Percebi que precisávamos criar um terceiro pilar: a indústria do turismo espacial”, afirma Chan para amarrar seu modelo de negócios. Só que, para erguer um pilar, é preciso gente: engenheiros de sistemas, especialistas em sobrevivência e, no mínimo, mais equipe. Para ter uma referência, o programa Artemis da NASA mobiliza quase 100.000 pessoas (somando empresas e parceiros) apenas para voltar à Lua. Para construir um hotel lá e sustentar presença de longo prazo - que também está no pacote de intenções da GRU Space -, a recomendação aos futuros clientes é conferir se o seguro de vida cobre “erros de juventude” do hoteleiro.
Um calendário que desafia as leis da física
Agora, olhando para o roteiro que a GRU Space divulga, a discrepância entre equipe e ambição fica ainda mais evidente. Já em 2029, Chan pretende enviar uma carga útil de 10 kg para a Lua, com o objetivo de testar uma primeira estrutura inflável e converter o regolito lunar em tijolos por meio de geopolímeros. Para quem não acompanha “alvenaria espacial”, a lógica é produzir um tipo de “concreto” usando a poeira local, sem ter de mandar sacos de cimento - pesados demais para tirar da atmosfera terrestre (e, portanto, caros demais).
No papel, isso conversa com um dos princípios centrais da NASA: In-Situ Resource Utilization, ou seja, usar recursos disponíveis no próprio local. O problema é que, entre o conceito e a execução, há um abismo que a GRU quer atravessar depressa demais.
Regolito e habitats infláveis: obstáculos técnicos que a GRU Space minimiza
O primeiro ponto é o próprio regolito: trata-se de uma poeira abrasiva, carregada de eletricidade estática, extremamente nociva aos pulmões e perigosa para componentes mecânicos. Para virar material de construção, seria necessário refinar e “cozinhar” essa matéria - e é difícil imaginar como fazer isso com apenas 10 kg de carga.
Depois vem a escolha pelo habitat inflável, já que o “hotel” começaria assim. Segurar uma pressão interna equivalente a 1 atmosfera num ambiente de vácuo total, enquanto se lida com variações térmicas de quase 300° C entre o dia e a noite lunares, exige materiais flexíveis e ao mesmo tempo ultra-resistentes, normalmente testados por longos períodos. Ainda assim, a GRU Space já se comprometeu com uma estrutura operacional para 2032, capaz de receber seus quatro primeiros clientes.
Concluída essa etapa, o plano é deixar o inflável para trás e partir para algo rígido e ostensivo: uma construção muito mais luxuosa, feita integralmente com tijolos lunares. O edifício projetado é uma réplica do Palace of Fine Arts, de San Francisco - um monumento de arquitetura greco-romana. Esse seria o complexo definitivo, que Chan quer ver de pé no solo lunar até o fim da década seguinte.
Só que isso tenta resolver um problema que provavelmente nem vai existir: a nave Starship, da SpaceX, foi concebida para transportar até 100 pessoas - um arranha-céu voador. Ao pousar na Lua, ela tende a funcionar como base autônoma de vida. Já vem robustamente equipada com o necessário: oxigênio, água, aquecimento, proteção contra radiação e quartos.
Ou seja: para o turista espacial, o “hotel” já existe - ainda que em formato de nave. Por que, então, assumir o risco de sair para o regolito e se trancar numa tenda inflável experimental ou num templo de tijolos de poeira, cuja segurança, por enquanto, estaria nas mãos de uma equipe de três pessoas, quando há um palácio high-tech certificado pela SpaceX logo atrás?
Chan responde assim: “A SpaceX constrói o FedEx para nos levar até lá, certo? Mas precisa existir um destino digno de estadia”. Na leitura dele, a Starship seria só um caminhão de entrega; ao chegar, seria preciso descer e ir para o hotel de verdade - o dele.
“Era impossível deixar todo mundo viver no primeiro navio que navegou para a América do Norte, não era? Precisamos construir as estradas e as estruturas em que vivemos hoje”, acrescenta, para justificar a obra. A metáfora é bonita, mas ignora um detalhe essencial: os colonos a bordo do Knaar (no caso, vikings no ano 1000) podiam desembarcar sem medo de serem irradiados pela primeira rajada de vento solar ou de ver o sangue ferver por causa do vácuo.
Por enquanto, o projeto da GRU Space parece mais o Fyre Festival do espaço e, a menos que aconteça um milagre, esse hotel deve continuar sendo o que é hoje: um render 3D cuja função prática é sugar o dinheiro de bilionários apressados para sair da Terra - o tipo de sonho que, quando a luz acende, deixa investidores sozinhos com arrependimentos e uma conta (muito) cara.
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