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Carnaval de Loulé: tradição centenária, sátira e cor no Algarve

Homem vestido de super-herói vermelho segura placa "Zé Povinho" em manifestação na rua com crianças e músicos.

É a celebração pré-Quaresma contínua mais antiga de Portugal e, todos os anos, atrai milhares de visitantes.

Vi o Carnaval pela primeira vez em 2020, poucos dias antes do início da pandemia. Foi o último grande evento público que eu presenciaria pelos dois anos seguintes. Depois disso, sempre surgia algum imprevisto - até que, em 2026, finalmente consegui voltar e participar novamente da festa.

Datas, horários e percurso do Carnaval de Loulé

O Carnaval aconteceu de 15 a 17 de fevereiro, com desfiles começando todas as tardes às 15h. A Avenida José da Costa Mealha virou o grande palco do cortejo principal. Eu fui no primeiro dia, domingo, dia 15. Chegar pouco antes do início teve um encanto próprio: as ruas se enchendo aos poucos, o som sendo testado nos alto-falantes, artistas fazendo os últimos acertos nas fantasias. Sem dúvida, são os dias mais movimentados do ano na cidade de Loulé.

Ao longo da avenida, desfilaram quatorze carros alegóricos, acompanhados por mais de 600 participantes - grupos de samba, dançarinas brasileiras, bonecos gigantes, malabaristas e equipes de animação. Músicas grudantes mantinham o ritmo lá em cima, e o clima era barulhento e festivo.

Baile de Gala e desfile infantil

A programação oficial começa antes do fim de semana principal. Na sexta-feira, 13 de fevereiro, às 10h, as crianças tomaram conta das ruas no próprio desfile. Durante duas horas, Loulé foi de piratas com o rosto pintado, mini-super-heróis e princesas, exibindo orgulhosamente as fantasias em uma versão reduzida do grande cortejo.

Um dos traços mais bonitos do Carnaval é ver todas as idades participando. No desfile principal, dá para notar todo mundo - de bebês a avós - curtindo junto.

Na segunda-feira à noite, 16 de fevereiro, às 22h, a festa saiu da rua e foi para o tradicional Baile de Gala no Salão de Festas de Loulé. O evento segue um tema definido, e os convidados devem usar máscaras alinhadas a ele. Continua sendo uma das noites mais aguardadas de todo o programa do Carnaval.

Uma celebração de raízes profundas

O Carnaval faz parte da identidade de Loulé desde pelo menos 1906. No início, era uma comemoração comunitária bem mais simples, conhecida como a “Batalha das Flores”. Os carros eram enfeitados com flores naturais e artesanais, muitas vezes inspiradas pelas amendoeiras em flor que tingem a paisagem do Algarve nesta época do ano.

Com o passar do tempo, o desfile foi se transformando aos poucos. A sátira ganhou espaço e se tornou um de seus elementos centrais, em parte sob influência das tradições do Carnaval brasileiro. Figuras gigantes - os famosos gigantones e cabeçudos - passaram a aparecer nos carros alegóricos, tirando sarro (às vezes com delicadeza, às vezes nem tanto) de políticos, personalidades e acontecimentos do momento. Esse senso de humor segue como um dos pilares do Carnaval de Loulé hoje.

Atualmente, o Carnaval vai muito além de um atrativo turístico: é algo que a própria comunidade ajuda a colocar de pé. Associações locais, escolas e voluntários participam da organização, e a venda de ingressos muitas vezes é destinada a causas sociais na região.

Sátira no volume máximo

No centro do desfile deste ano estava o Zé Povinho, reinventado como um improvável super-herói popular. Vestido com um traje verde e vermelho no estilo Superman e “voando” com a ajuda de um guarda-chuva firmemente fechado - uma brincadeira com a superstição de que abri-lo traz chuva - ele enfrentava problemas do dia a dia, como o aumento do custo de vida, a pressão sobre os serviços de saúde e a crise habitacional.

Um dos carros trouxe a Estátua da Justiça com sua balança, com dinheiro em um dos lados. Ao lado dela, havia uma figura do Coringa, acrescentando caos e ironia - um recado simples e direto sobre como o dinheiro pode influenciar a justiça.

A política, como sempre, rendeu assunto de sobra. Um carro imaginou a corrida presidencial como uma saga submarina: o Almirante Henrique Gouveia e Melo virou o Aquaman, e Luís Marques Mendes apareceu como um Nemo de olhos arregalados. O ex-primeiro-ministro José Sócrates surgiu como o Coringa, trazendo aquele toque familiar de drama.

O esporte também entrou na mira. Cristiano Ronaldo fez sua aparição habitual como “Super-Ronaldo”, desta vez acompanhado de Georgina e seu anel de noivado gigante. As rivalidades do futebol português foram encenadas como um confronto de histórias em quadrinhos entre presidentes de clubes reimaginados como figuras à la Hulk e dragões.

Até temas internacionais tiveram espaço no cortejo. Um dos carros mais elaborados aludiu às tensões na Venezuela, mostrando Nicolás Maduro em um barco carregado de contrabando, interceptado em águas caribenhas por um Donald Trump no estilo Capitão América. E nenhuma sátira contemporânea estaria completa sem a presença de nomes como Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin.

Depois de mais de um século, o Carnaval de Loulé continua fazendo o que sempre soube fazer melhor: retratar o mundo com humor, cor e exagero.


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